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Escrito por Administrator   
Quinta, 11 Setembro 2008 18:20

As origens da Azinhaga perdem-se no tempo, o texto que se segue é a origem de "AUGUSTO DO SOUTO BARREIROS" em "AZINHAGA - LIVRO DE HORAS"

De clima temperado, sempre que o Suão se esquece de ser fogo ou as geadas se escondem por detrás dos invernos mansos, o Ribatejo, na sua geografia, segundo o Prof. Amorim Girão, "apresenta no seu núcleo de formação, a existência de urna vasta planície de sedimentação, deprimida e uniforme, que no dizer de Epicuro " o claro Tejo rega tão sereno". Daí que, pelas características físicas dos solos, do verde vivíssimo das lezírias ao verde-cinza dos espargais até ao verde-sépia das charnecas, Azinhaga se não dissocie dele porque é ele mesmo, ainda quando o limitam a Borda d'Agua.

O lugar, como diz Alberto de Pimentel, situa-se " na região da campina atravessada pelo Almonda e formada parte pelo miocénio lacustre, parte por aluviões". Serrão de Faria acrescenta, por sua vez, que "os campos são férteis devido ao depósito das águas dos dois rios, com os olivais assentes em terrenos terciários planos, na sua maioria silex-argilosos, com cultura intensiva de cereais de pragana que são farto manancial de riqueza agrícola".

O documento mais antigo que se conhece dela é o foral concedido por D. Sancho II. A sua existência remonta, portanto, aos primórdios da nossa nacionalidade. Se o seu nome, Azinhaga ou Azenhaga, provém do árabe Azzancha, derivação do verbo "zanaca que significa caminho estreito, viela apertada entre montes, charnecas ou valados", então a sua antiguidade é mais remota e se transfere para épocas anteriores à fundação do Reino. Para quem a vê hoje, aldeia branca implantada na vastidão do plaino, "caminho estreito" não será um contracenso? No sentido de horizontes apertados, talvez. Mas se pensarmos que, ao tempo, e até aos últimos lustros do século XIX, a campina era, em toda a sua extensão, rasgada por dezenas de alvercas e braços do Tejo, os seus limites seriam, de facto, exíguos. No seu crescimento, a povoação acompanhou o sentido natural do Almonda. Forçada foi, contudo, a suspender o seu desenvolvimento, nessa direcção, em virtude de, durante as inundações, a Alverca das Moitas transbordar juntando-se à de Fernão Leite, no Pombalinho. Do outro lado, a oeste e sul da Broa, vários braços do Rio Velho encaminhavam-se para sudoeste, passando uns cerca de Miranda, e alguns mais perto das Teixeiras, escoando-se por detrás da Melhorada até chegarem ao Alviela. A prová-lo as pontes que, ainda hoje, se encontram em terra firme, uma na encruzilhada das estradas de Mato de Miranda e da antiga Cholda-Bolda e outra, a oeste, perto da estação.


A localidade sujeitar-se-ia pois, a ser, em pleno pântano, quase uma pequena ilha. Para se chegar, só por caminhos ínvios, logo estreitos, como os árabes, na sua linguagem, a propósito lhe deram o nome de Azzancha.

Através dos anos, sofrendo os condicionalismos que o meio impôs ao seu cresci­mento, Azinhaga é agora uma rua muito comprida, larga e sinuosa, com várias designações, Cabo das Casas, Espírito Santo. Misericórdia, S. José e Alagoa por onde a aldeia se abre a norte e a sul. Delas partem, do começo ao fim, outras quinze com suas nomenclaturas, a caminho do rio ou na direcção dos espragais, como a de Sta. Catarina. Quase ao centro ou. pelo menos, como seu centro, o Largo da Praça. Daqui irradiam para poente e nascente, novas artérias que vão para as Desvisões, o Miradouro, o Amado, as quais, por seu turno, se rasgam numa teia para se tornarem a do Loureiro, a de Sto. António, a do Cardoso, a da Amendoeira, a do Calcanhar, quietas e velhinhas.

A aldeia, casas brancas de taipa, uma porta, uma janela. Algumas, numa correnteza, com persianas em madeira marchetada. Um encanto. A cor dominante é a explosão antiga do branco-cal. Cal tão ao gosto do Arq. Raul Lino a que o tempo e o sol amorenavam de leve. Barras azuis, cinzentas, amarelas, verdes, castanhas, ocre, grenat... emprestavam-lhe um enquadramento irreal na policromia das tintas. Excepção, a moradia, casas de criados e celeiros do patrão Carlos Marques, um dos muitos herdeiros de Rafael José da Cunha. Espalhadas ao acaso pelo lugar, todas vermelho-sangue de boi a que barras amarelas avivavam numa orgia de quentura.

Da humildade de tantas, sobressai uma construção digna, forte, bem delineada, com um pátio, de grande portão, a ligá-la à horta, agora pertença da família Rio Maior. O interior, pintado com rectas e desenhos geométricos, a cores fortes sobre estuque, é cativante.

Ainda, mais alguns imóveis de primeiro andar, simples, mas respeitáveis, como convém a qualquer terra que se preze.

Sem esquecermos a grandeza da Matriz, a sobriedade da Igreja da Misericórdia, o bucolismo das suas ermidas, dois solares serão, como elas, a sua vaidade. O dos Serrões é um enorme edifício, notável pelo equilíbrio das suas linhas. Sobre a porta principal, o brasão da família, um leão altaneiro e agressivo. A parte sul foi construída no séc. XVI, enquanto a ala norte é do séc. XVII, da mesma data da capela que lhe está fronteira, obras de Gaspar Serrão. Reconhece-se o acrescento no alinhamento da fachada. Nas janelas de sacada, também, cuja gradaria de ferro tem a encimá-la, de cada lado, uma esfera armilar. Na parte antiga as grades são prismas quadrangulares, na mais recente, cilíndricas.

O solar dos Vellez de Figueiredo é o exemplo típico da arquitectura rural na região. A vida agrícola que os seus donos levaram está patente no desenho recto das paredes. Nem os acrescentos, que se lhe notam, o fizeram perder a harmonia sóbria das construções quinhentistas. Tocante, único no seu donaire campestre. Sobre a verga do portão, que abre para um bonito pátio, o brasão rendilhado dos velhos senhores. A sul, rua fora, e a nascente, quase a tocar o rio, casas, celeiros e cavalariças que mantinham com o prédio uma estreita e singela ligação. Do lado norte, geminada com ele, a ermida do Divino Espírito Santo.

Através do tempo, Azinhaga, meio predominantemente agrícola, e sem indústria, teve períodos de maior ou menor evidência. Se pudemos certificar que aqui abundou a cultura do linho, já o mesmo se duvida quanto à sua tecelagem. Contudo, cerca de dois séculos e meio depois, inaugurou-se uma fábrica: a de Santa Teresinha. Cerimónia solene que meteu bênção, filarmónica e beberete farto. Foi a primeira tentativa de industrialização da terra. Local privilegiado que se encontra rodeado de ricos e produtivos olivais. E os olivais dão azeite abundante das imensas sutas de azeitonas espremidas nos dez lagares da freguesia. E do que ficava no interior das ceiras, quando retiradas das prensas, o bagaço, apenas tinha préstimo para alimentação de porcos.

Necessária, pois, uma indústria que lhe oferecesse digno e mais higiénico destino. Com a Fábrica de Santa Teresinha conseguiu-se o intento. Do líquido sujo, saído do bagaço apertado até à sequidão, produzia-se, imaginem, sabão. Os lavradores rejubilaram. Os porcos é que não.

A família Borges do Rego, proprietária de tamanha inovação, tinha razões, em nome do progresso, para se sentir feliz. Até porque dava trabalho a um ror de pessoal em regra sujeito às crises cíclicas da região. O que era verdade.

Melhor, todavia, quando estalou a Guerra, a segunda mundial. É que o tal óleo de bagaço também era óptimo para explosivos. O gerente da fábrica. Artur Santa Bárbara, impou de satisfação. Excelente pessoa, que o era de facto, dava trabalho a quem lho pedia, sobretudo a quem tivesse mais filhos.

E milhares e milhares de barris, embarcados na estação de Mato de Miranda, via Espanha, França ocupada e Suíça, chegavam finalmente à Alemanha.

Grave, quando a Guerra terminou. A fábrica diminuiu a sua produção, houve que despedir pessoal, o que se fazia a contragosto, e Azinhaga sentiu perder a sua curta prosperidade.

Afinal, a primeira fábrica redundara numa aflitiva desilusão.

Anos mais tarde, Luigi Fontanarosa, italiano simpático e sonhador, passou por aqui num fim de semana ocasional. Gostou do que viu: terras planas, férteis, fáceis de regar. Prometeu a si mesmo voltar para construir uma fábrica! Agora, de concentrado de tomate. Descobrira só o maior centro produtor do País, dessa planta solonácea. Reformado da Embaixada de Itália, em Lisboa, vendeu quanto possuía na pátria e, sem grandes recursos financeiros deitou-se à obra. Tentou aliciar terceiros, sobretudo a lavoura local tradicionalmente avessa a estas aventuras. Ajuda negada, procura financiadores do e da capital. Houve interesse e, com pausas e tropeções, a fábrica nasceu a custo. Sobretudo após a vinda de industriais do norte, de Matosinhos, mais propriamente de José Rodrigues Serrano. Homem seco, ponderado, mas inteligente e arguto conseguiu dar novo impulso à Sociedade Industrial de Concentrados. E transformou-a, de quase artesanal na melhor e mais moderna instalação do género existente em Portugal. Vieram técnicos e máquinas de Milão. Estava-se em 1945/6. O que Fontanarosa sonhara deixou de ser aventura para se tornar uma realidade, essa sim, a modificar por completo a vida e a economia locais. Azinhaga e arredores explodiram de grandeza, no trabalho duro dos seareiros e de eficácia na rotina dos operários. O dinheiro cresceu. Via-se. Como no Far-West, mas sem tiros. As terras valorizaram-se, rendiam. Assim, por muitos e bons anos. Inesquecíveis.

Até que... Não se sabe bem porquê (quem lhe conhece os segredos?) as coisas transformaram-se.

Não culpem o "25 de Abril" de todas as desgraças. Mas que foi uma desgraça, isso foi. Sobretudo se por descuidada gestão.

Vendida e revendida, a "SIC" acabou por fechar as portas. E com elas encerradas, o pessoal não entrava e os tomates também não. Pararam as máquinas, degradaram-se as coisas, calou-se a sirene. Suspendeu-se a produção. O fim. Despedimentos. Desemprego. Lágrimas. Medo. Revolta. Desespero.

Como a primeira, a segunda tentativa (que já nem seria tentativa) resultou, outra vez, em traiçoeira e dolorosa desilusão.

Deste modo, com o desfavor dos deuses, terminou a aventura industrial de Azinhaga. "Sem honra nem proveito". Pelo menos para a população.

Da mal sucedida industrialização que, em toda a parte, requer estudos, desenvolvimento e programação no tempo e no espaço, recuemos outra vez, se não no espaço, pelo menos no tempo.

Difícil viver no local, por insalubre, mercê das águas dos pauis. Por esse motivo, já no séc. XVIII, o Marquês de Pombal repovoou com negros a imensa planura encharcada e doentia. Em ambas as margens do Tejo.

A época de Quinhentos será, contudo, a de maior crescimento da localidade. Se, pelo senso de 1527 Azinhaga possuía 124 habitantes, a Dra. Maria Isabel Beirante, no livro "Santarém Quinhentista", anota que anos depois, embora a norte do Tejo 70% dos povoados não atingissem os 100 moradores, Santarém contava com 8946, a Golegã, 1894, o Cartaxo, 1008, Azinhaga e Pontével, 500 cada. A sul, a Chamusca, Ulme, Almeirim e Muge, também 500.

O desenvolvimento do lugar deve-se a três razões: o começo da drenagem dos pân­tanos com o consequente aproveitamento das terras para a agricultura e pastorícia, sobretudo as do Infantado sob a orientação próxima do Príncipe D. Fernando que aqui se deslocava com frequência; a evolução conseguida na utilização do Tejo autorizando-se, nos diversos portos, o aumento do número de barcas para transporte entre as margens e/ou a capital, de passageiros, e gados e mercadorias; e, ainda, posto que de menor importância, o uso mais frequente da estrada real Lisboa-Coimbra que pas­sando perto da freguesia, no sitio da Cholda-Bolda, cruzava o Almonda através de uma ponte existente a pouca distância da actual.

Sem merecer grande crédito, transcrevemos, só por falar no autor de "Os Lusíadas", o que a propósito da vitalização do local se diz na revista "O Ribatejo Histórico e Monumental": "No reinado de D. Manuel foi dada licença da barca de Azinhaga a Simão Vaz de Camões", pai do nosso Épico. "Esta barca era para passagem dos braços do Tejo e do próprio Tejo. Ainda se encontram ao sul da povoação na confluência dos dois rios Tejo e Almonda, alicerces de casas de pousada e estaleiros. O sítio é conhecido pelo porto do Cação, barca do Cação, certamente corrupção de Simão".

Até às inundações de 1940 e 41, encontravam-se, de facto, no sítio indicado, ou seja, nos baixios da Quinta d’el Rei, restos dessas "casas de pousada e estaleiros", bem como parte do porto, em pedra sobreposta, com lugares para atracagem. Este local é, quase junto à foz, na margem direita do Almonda. Ora, se o porto do Cação fica, a certa longura, mas na margem esquerda do rio, tudo parece indicar que houve confusão ou, mesmo, desconhecimento da situação exacta de cada um. Como não existem outros documentos a confirmá-lo, a hipótese deve tratar-se de lenda, uma vez que a Dra. Maria Isabel Beirante sustenta que em 1590 o rendeiro da barca do Almonda era Simão Surrado "que pagou 66 500 réis a fora despesas ordinárias". Dado que as datas nem são coincidentes e não constar que o pai do Poeta lhe tenha sobrevivido, não será Cação (se o for) corruptela desde Simão? Ou, o que mais simples e menos fantasista, não corresponderá Cação a nome de um peixe (do mar) que devido ao fluxo das marés ali tivesse sido acidentalmente encontrado? Para lá de certas pequenas divergências, interessa-nos antes saber que o movimento ie rio era grande, proveitoso, já que a autora indica que, anteriormente, em 1552 "... no termo de Santarém contavam-se mais de 80 barcos, pertencendo 50, aos portos a montante (Tanquinhos, Golegã, Azinhaga e Chamusca) e 30 nos portos a jusante (Porto de Muge e Salvaterra)".

Recordemos, porque nos diz respeito "o arrendamento em 1591 da barca de Azinhaga a Gaspar Fernandes, da mesma localidade, e a do Alviela a Simão Fernandes, também de Azinhaga".

Por "três barcas aparelhadas trabalhavam (aqui), para Gaspar Fernandes, seis homens (incluindo ele) e que fazia a despesa anual de 150 000 réis". Donde se conclui que as receitas e as despesas anuais eram de grande importância na economia da zona, devido, não só aos valores das rendas cobradas, como aos lucros resultantes do transporte de passageiros e mercadorias pagos, com "bolos" e avenças, pelos lavradores sempre que o seu pessoal e gados as utilizavam. Daí que na análise das receitas do concelho de Santarém venha em primeiro lugar a renda das barcas.

Quanto aos reveses dos barqueiros, acrescenta-se, na obra "Santarém Quinhentista", que depois das cheias de 1591 vem a seca de 1592 e com ela o protesto de Simão Surrado, morador em Santarém, rendeiro da barca do Almonda que lhe fora arrenda­da, repete-se, pelo S. João de 1592 pela quantia de 66500 réis". Alega o rendeiro os gastos extra que a seca lhe provocara, posto tivesse aguardado pelo S. Martinho. Com isso nada lucrara, afinal, em virtude dos possíveis passageiros terem passado a vau o leito do Almonda.

Analisadas provas e contraprovas, o Rei. Filipe II de Espanha e I de Portugal, "decide a favor do concelho de Santarém cujo procurador conseguiu demonstrar que durante o ano de 1591 o autor ganhara muito bem".

O dobrar de um século pressupõe mudança. Ainda que subjectiva, nem assim deixará de pressupor. Para melhor, ou para pior quem o saberá?

Mas não é de imaginar que Azinhaga mantivesse, ou pudesse manter, nos outros que chegassem, o mesmo ritmo de crescimento atingido nos, para si, luxuriantes anos de Quinhentos: no saneamento e na agricultura, no comércio e nos transportes. Em si própria, também, na memória que os seus principais edifícios (Misericórdia, ermidas e solares) nos deixaram nas datas da sua construção.

Em 1609, o lugar tem 100 vizinhos. Se multiplicarmos este número pelo coeficiente 4, terá 400 habitantes, se por 5 contará, então, 500. Isto porque, segundo os técnicos, cada grupo de vizinhos será um aglomerado de 4/5 pessoas. Certifica-se, desta maneira, que o sítio mantém, em princípio, a população que atingira a partir de meados do séc. XVI.

Só que as épocas são diferentes. Terminada, com mais louros do que ouros a epopeia dos Descobrimentos, os povos exigem para se fixar (e talvez o façam porque o Rei é espanhol) medidas novas para problemas velhos. O Soberano, sempre olhado como intruso, legisla contemporizador que "a navegabilidade dos grandes rios como o Tejo, o Mondego e o Douro, se proceda na intenção de estimular o comércio para benefício das regiões interiores".

Em parte, mas mais difícil, o mesmo que, em finais de Novecentos, se procura conseguir, com os dinheiros da U.E., na fazedura de autoestradas e IPs. Apesar de tudo, no séc. XVII, o caso é mais custoso, como nos demonstra o Prof. Veríssimo Serrão, na sua "História de Portugal": "A situação mais grave ocorria no Ribatejo, sobretudo em Azinhaga e Alpiarça, onde as águas do rio inundavam a zona ribeirinha por ocasião das grandes chuvas, não apenas destruindo as culturas, como pondo em risco a vida dos moradores. A abertura de braços fluviais era a única maneira de garantir boas sementeiras em terreno finalmente arável". Os povos, entretanto, "pediram também a rasgadura de valas, pelo que a Coroa ordenou que se desse provimento à abertura do rio em Alpiarça e do braço fluvial de Azinhaga". Determinou-se ainda que coubesse aos proprietários das terras os encargos de abrir pauis e de as beneficiar. Ordem, causadora de perturbações, não foi bem recebida e aceite por eles. Ontem, como hoje.

Como se contou anteriormente, o Tejo cortava as lezírias, e muito do que foram os espargais de saudosa lembrança, com um sem número de braços, nunca dominados, que prejudicavam mais do que beneficiavam os campos. E as gentes. Impedindo as culturas, facilitavam, por outro lado, as inundações. As águas subindo sem regra, desciam por caminhos de acaso em leitos de ocasião. Para além do que não seria menos grave, tornarem a região pantanosa e doentia.

Agora, perante esta medida régia: regularização dos braços dos rios, limitação das alvercas e abertura programada de valas, conquistar-se-iam terras para cultivo, iniciando-se, noutra vertente, um período de retrocesso de maleitas, isto é, das sezões que tantas mortes causaram às populações locais. Até ao séc. XX. Lógico que nem tudo se tivesse resolvido. Mesmo por auto resistência do meio. Mas foi, para a data, uma tentativa de aplaudir.

Na navegação, entretanto, as barcas de construção larga e pouco funda, devido ao calado dos rios e dos canais, eram, em geral, movidas pela força do vento batendo nas velas dos três mastros. Prosseguiriam a sua faina, séculos adiante, mais ou menos lucrativas, mais ou menos necessárias aquando do aparecimento do comboio. E que o Tejo, no tempo seco, permitia aventuras, mesmo a quem não fosse aventureiro. Quando zangado, avisava a horas, pensando nos homens e nos animais. De Ródão, conhecida a sua altura, fazia-se a devida proporção e, em geral, não havia motivos para preocupações. Por calmo e galhofeiro, insinuava-se no íntimo das pessoas. E as pessoas, que confiavam nele e na sua paz, iam e vinham, entre belíssimas paisagens e sonhos muitos, em viagens paradas à demanda de índias de aqui ao pé. Por último, preciosa de velhice, antes e neste século até à sua hora, a barca da Casa Veiga ligava, em horários certos, os portos das Moitas e do Mouchão, na outra banda do Tejo. Por isso, lhe chamavam "a barca do Mouchão". Levava pessoas, gados, mer­cadorias. Sem pressas, brisa murmurando nas velas triangulares desbotadas por sóis ásperos e chuvas desabridas.

Governava-a mestre António Gabriel, boné à marujo, de pala de oleado sobre cabelos ralos, faces cortadas por coitos e temporais, olhos azuis firmados na distância. Temerário nas cheias bravas, para salvar o que houvesse, nas tardes calmas, ao invés, sossegava-se ao leme, inspirando, no vício no cachimbo, o fumo forte e agridoce das barbas secas do milho. Quando a saudade vinha, dedos grossos tiniam a guitarra, enquanto a voz, de rouca, toava o "Mouraria".

As fragatas, essas continuaram a navegar. Só que um dia, em 1934, o sr. Linhares de Lima, Ministro da Agricultura, decretou a permissão de arroteias nas arribas do Tejo. Coisa que o Marquês de Pombal proibira, cerca de 200 anos antes, em defesa do tráfego fluvial. Estava em causa a "Campanha do Trigo", é bom não esquecer. E foice aqui. enxada ali. charrua acolá, o chão ficou limpo de mato, urze e rosmaninho. Nu. Sem aconchego. Nem sequer o da semente do cereal enganado. Deu pão. Deu. Um ano. Outro. E nunca mais. Que o solo, sem agasalho, escorregou sobre si mesmo, com o efeito das chuvas. Hesitante, perdido, abalou, arriba abaixo, para se tornar areia no leito pobre do rio. E entulhou o leito. E assoreou o rio. A montante e a jusante. E as águas, em zigue-zague. esqueceram o trilho certo das marachas. E nunca mais as fragatas, sucessoras das barcas velhas, correram airosas e descuidadas sobre o Tejo assassinado.

A aldeia ainda recorda os irmãos Francisco. João e António Rufino, também conhecidos por Azeiteiros. talvez porque tivessem conseguido com algum armazenista de Lisboa o exclusivo do carregamento de azeite, aos anos tão abundante na freguesia. De parceria com outro barqueiro, o José da Silva (Zé da Moca), transportaram as derradeiras cargas de cortiça, de cereais, de fardos de palha, retornando com sal que descarregaram sisudos no porto da Igreja.

Depois, olhadas com respeito, as fragatas, que foram lindas de se ver, restos de velas pendentes, mastros destruídos, ali apodreceram, amortalhadas em lama, enquanto os sinos dobravam as dores do seu desaparecimento.

Voltemos, outra vez, a eras mais distantes, anteriores ás dos Árabes, de quando Azinhaga se não chamava Azinhaga, nem Azzancha, e os romanos, vencido Viriato, colonizaram a Lusitânia com o poder das armas e a civilizaram com a força da sua cultura.

Existiu, então, uma urbe de magia que alguém pensou, ou sonhou, ter sido edificada nestes plainos fertilíssimos. Inundáveis, porém, pelas águas do "claro Tejo". Outros, não sabemos em que se basearam, dizem-na situada nas imediações de Santarém. E Scalibis onde seria, então? Terceiros, imaginam-na soterrada nas cercanias de Abrantes ou mesmo de Almeirim.

Julgam alguns, certamente espanhóis, haver dela fartos vestígios em terras da Andaluzia. Nada perto, ainda assim.

Há um certo embaraço entre os estudiosos quanto à sua verdadeira localização. Isto não aproveita a ninguém porque induz a erros, a equívocos.

Que Moron, de que fala Strabão, seja onde tiver sido. Mas aqui não, cidade como Pestum, a grega, cercada de pântanos, desabitada e morta, na Itália, por pragas de mosquitos. Que saibamos nenhum arqueólogo reivindicou para si, a honra, o proveito ou a sorte de a ter descoberto nas entranhas destas planícies. Mas outro sucesso é confirmado: no limite das freguesias de Azinhaga e Pombalinho foram, há anos, encontradas, em escavações de acaso, ruínas de villa romana que, pelo valor, se supõe ter pertencido a ricos proprietários. Lá se encontraram, em melhor ou pior estado, mosaicos, calçadas, esgotos, túmulos ... Túmulos com nomes, datas e inscrições em latim que, despojados dos ossos, passaram a servir de bebedouros para animais e, rasos de água. para arrefecer ferros em brasa na serralharia de mestre José Madeira.

E vasos, frascos, pequenos, maiores, alguns azuis, muito azuis, translúcidos como os de Pompeia que ainda cheiravam, quando abertos, a um perfume estranho, quase fúnebre, deslocado no tempo.

Coisas não classificadas que não pertenciam a ninguém, e nunca, por direito, chegaram a ser do Estado. Para que os vindouros pudessem saber delas mesmo na frieza de um qualquer museu.

Pela fertilidade dos seus campos. Azinhaga tem sido. através dos séculos, uma localidade riquíssima. Não, no comum dos seus habitantes. Outros sim, na rara minoria de proprietários, que, vivendo fora dela, puderam explorar, em proveito próprio, os seus extraordinários recursos agro-pecuários.

Admite-se, assim, que a nobreza, em regra residente em Lisboa, tivesse criado para si e seus familiares, famosas quintas que os acolhiam quando aqui se deslocavam. Altura em que os feitores, demonstrando os efeitos das suas gerências, lhes apresentavam o "deve haver", das suas (deles) propriedades. Não teriam solares ou palacetes de luxo. Contentavam-se com casas cómodas onde pudessem relaxar os corpos e encontrar a paz, por intermédio de Deus, ali ao pé, na quietude das suas capelas. Isolavam-se. Curiosamente, ao contrário dos das povoações vizinhas. A paróquia possuía a imponência de duas Igrejas e o recorde de dez ermidas, duas das quais do povo.

E de crer que não haja no País, em qualquer freguesia rural ou urbana, outra que se lhe equipare em número de templos.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a maior do Ribatejo nos seus 1000 metros quadrados, pertence à Junta de Freguesia local. O "'Inventário Artístico de Portugal — Distrito de Santarém —" dá-nos nota de que é um "templo cuja fachada acusa nitidamente o acrescento feito pela torre sineira que veio a inserir-se no frontão decorado de recortes de alvenaria. A porta é de um característico barroco, com colunas ladeantes, e. sobre esta, uma edícula onde se abre um janelão para iluminação interior.

E um vasto templo de três naves, com arcos de volta redonda, pousados em colunas lisas e cilíndricas, formando cinco tramos, e cobertas de tectos de madeira. Tem capela-mor, duas laterais e duas colaterais sendo a ousia coberta por uma abóbada de trinta caixotões. No corpo do templo há um silhar baixo de azulejos azuis e amarelos do séc. XVII, "padrão", e, na empena do arco triunfal, revestimento completo e um painel embutido representando a Eucaristia.

No pavimento da capela-mor, entre outras campas, está a lápide brasonada de D. José da Câmara e de sua mãe a Condessa da Ribeira, D. Joana Tomásio da Câmara, ele falecido em 31 de Agosto de 1763 e ela em 2 de Março de 1782". A Igreja, construída no séc. XVII. possui ainda um grande coro com balaustrada e um púlpito em pedra, singelo, mas bem lançado. Foi totalmente arrasada pelas tropas francesas, sob o comando do marechal Massena. durante a terceira Invasão. Como curiosidade, acrescentaremos que. ainda profanada, foi cenário do primeiro comício republicano, realizado em Azinhaga, em que numa entusiástica exortação ao povo, de que possuímos o original, foi orador o coronel de Cavalaria, Augusto Serrão de Faria Pereira.

A sua reconstrução, com arranques e paragens, em que se lhe acrescentou a torre, terminou em 1882, conforme se lê na verga da porta principal. Foi efectuada a expensas da população local e da família Serrão de Faria, pelo que a capela lateral direita lhe foi oferecida.

Com abertura ao Culto da Nova Igreja Matriz, a Padroeira da Paróquia deixou de chamar-se Santa Maria do Almonda ou Santa Maria da Azinhaga para passar a ser Nossa Senhora da Conceição.

Na rua da Igreja, quase à esquina, cerca do muro do adro, existiu um pelourinho que os antigos diziam de bonito, e que uma qualquer Junta, por um qualquer motivo, mandou destruir.

Quase defronte da Paroquial, com esquina para a rua de Santa Catarina, a Igreja da Misericórdia.

Extensão do antigo edifício de que constam o pátio com vestígios Quinhentistas, alpendres sobre colunas, varandas abertas e escadarias, uma central e duas laterais que dão acesso ao corpo principal do imóvel onde, em tempos idos, funcionou o hospital. Do lado esquerdo de quem entra, uma casa de segundo andar, única no povoado, tendo no rés-do-chão, com porta para a rua. uma divisão térrea aberta a todos os mendigos que desejassem abrigo. Era "a casa dos pobres" No mesmo plano, sob uma bonita varanda, um celeiro, também térreo, com um curioso arco, que servia para arrecadação de mantimentos e utensílios. A direita, a Igreja, com portal para a rua. em cuja verga se lê:

"MIA E HOSPITAL EDIFICADA ANO DE 1572".

Sobre ela, encontra-se uma janela com sacada de balaústres em pedra.

O templo, com porta para o pátio, pequeno mas equilibrado era interiormente forra-do de alto a baixo, com azulejos axadrezados, azuis e brancos. Do seu lado direito, perto do único altar pintado a verde-cinza claro, com filetes dourados, estendia-se uma correnteza de cadeiras de braços com assentos amovíveis, de madeira nobre, destinadas aos membros da mesa da Instituição. Ao fundo, do lado da rua, o coro com balaustrada, da mesma cor do altar. À esquerda, correspondente ao primeiro andar do edifício, uma janela de sacada com gradeamento em ferro forjado (entaipada) servia para qualquer doente, em estado mais crítico, assistir à missa. Tecto branco, de caixão.

A sacristia ficava na rua de Santa Catarina, muito perto da entrada para o pátio da Companhia das Lezírias. Como, certa vez, um automóvel, em excesso de velocidade, ao dar a curva chocou com ela, as eminências pardas que então governavam Azinhaga não fizeram por menos: o camartelo demoliu-a. Sem apelo nem agravo. Pena que pela harmonia da sua traça Quinhentista, única em Azinhaga, o edifício se encontre, por responsabilidade de muitos, num irreversível e preocupante estado de degradação.

Conforme o "Dicionário Geográfico de Portugal", "a Misericórdia, por breve pontifício erigiu-se dos bens de quatro confrarias que antigamente havia na Igreja Matriz". Ora, se a Santa Casa se fundou no séc. XVI e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi edificada no séc. XVII, como pode ser? Alguma vez a filha nasceu antes da mãe?

Sabendo-se, no entanto, que a antiga freguesia era a de Santa Maria do Almonda, ou Santa Maria da Ponte de Azinhaga, ou apenas. Santa Maria da Azinhaga, sita onde é hoje a Capela de Nossa Senhora da Piedade, é natural supor-se que a então Matriz não tivesse sido a actual Ermida, mas um templo mais vasto, "sumptuoso", segundo alguns, que existiria pelo menos até meados do séc. XIV, no mesmo lugar, pertença dos Cavaleiros Templários.

Sendo realmente como supomos, as datas condizem. Isto é, a Misericórdia, do séc. XVI, foi de facto "erigida por quatro confrarias que antigamente havia na Igreja Matriz", ou seja, na Paróquia de Santa Maria do Almonda, do séc. XIV. Assim está certo, a filha nasceu depois da mãe.

A Ermida da Senhora da Piedade, também ela, nos seus reduzidos cem metros quadrados (como consta na Caderneta Predial), propriedade da Junta de Freguesia, crê-se que tenha sido construída sobre as ruínas do altar-mor da primeira matriz paroquial de Azinhaga.

Pelo que dela se descreve no "Inventário Artístico de Portugal" parece não restarem dúvidas, mesmo aos mais cépticos, que "é um templo Quatrocentista, reformado nos séc. XVI e XVIII, como claramente se observa no seu interior e se concluiu pela data, 1710, posta no friso da porta. A actual galilé ocupa o espaço do antigo templo, que talvez tivesse derruído, tendo-se erguido uma parede no ponto do anterior arco triunfal, onde se rasga a porta de entrada. O arco da antiga capela-mor vê-se ainda embebido nesta parede com as suas mísulas de apoio, e os capitéis das colunas onde passava o arco de ponta de lança. A abóbada desta capela-mor, que é actual ermida, é de cruzeta tendo no fecho uma estranha decoração heráldica, dentro de um ornato circular encordoado. E um escudo prelatício com paquife de cordões e mantelado por um chapéu, apresentado entre duas pombas(?) , uma espécie de roldana ao alto de uma haste terminada em anel. A parede da empena da entrada e as duas laterais são forradas de azulejos azuis e amarelos, de "padrão" vulgar do séc. XVII.

Os capitéis dos cantos, de onde nascem as nervuras, são de ornamentação vegetal e todos diferentes.

Na empena que forma o topo de um dos braços da cruz latina, à direita, abre-se um óculo arredondado de ornamentos flamejantes.

O pavimento da capela actual foi elevado, ocultando as bases das colunas (de capitéis cortados a escopro) para se assentar o presbitério. Foram utilizados nele alguns azulejos de "corda seca", nas faces dos degraus e pedras quadrangulares de cabeceiras de sepulturas medievais com cruzes templárias, signos-saimões e suásticas. A imagem da Senhora da Piedade, que está no nicho pintado sobre o altar, é uma imagem Seiscentista, de pedra muito mal estufada".

Pela descrição detalhada, não duvidamos tratar-se do pouco que resta do templo primitivo que foi, com certeza, a primeira Matriz da freguesia de Azinhaga. Isto é, a Igreja de Santa Maria do Almonda.

Lembramos que, há anos a Casa Veiga, para melhorar as serventias dos moradores, mandou abrir um fosso nas traseiras das habitações dos então criados-justos que ficam do lado da estrada, abaixo da Ermida. Com a obra, apareceram, ante o espanto e o pavor supersticioso de muitos, algumas dezenas de esqueletos que pelo grau de deteriorização, indicavam estar enterrados há vários séculos. De quem seriam? De membros menores da Ordem de Cristo? A ser verdade, conjectura-se que o macabro achado provaria a existência, no local, de um monumento que alguém considerou de sumptuosíssimo.

Depois da melhor ou pior amostragem destas três Igrejas, duas das quais Matrizes, será caso de se acrescentar que existia, antigamente, uma Comissão de Paróquia, cooperação sufragada pelos paroquianos para administrar a Fábrica da Igreja no que respeita à preservação, defesa e manutenção dos bens dessa mesma Paróquia. A última existente em Azinhaga, que aliás não consta ter sido eleita, era constituída pelo Padre Carvalho, Conde de Azinhaga e Hilário do Souto Barreiros, à data Presidente da Junta, em cujo cofre se encontravam, devidamente arrolados, os bens propriedade da Igreja, para além dos que, naturalmente, estariam no próprio templo: quadros a óleo, custódia, tocheiras, lamparinas, candelabros, defumadores, órgão, paramentos e outras alfaias. Imagens também, até na sacristia, como, por exemplo, as que vieram da desmantelada Igreja da Misericórdia, em 1941. Em dias de festa, ou nas antevésperas, o responsável pela procissão, devidamente credenciado, vinha buscar o preciso para guarnecer as imagens a quem tinham sido oferecidas, em regra para pagamento de promessas, sobretudo à Senhora da Piedade. Eram cordões, fios, brincos, arrecadas, anéis, medalhas, enfim ouro, muito ouro que custara sacrifícios aos crentes que os doaram em reconhecimento da vida, da saúde ou dos amores que os Santos acharam proteger por bem.

Terminada a festa, o emissário voltava, com inventário seguro, a encher o cofre da Junta.

Mais tarde, com a extinção das Comissões de Fábrica, houve, para lhe dar efeito, a consequente transferência dos bens desse mesmo cofre, para entrega à vista a quem tivesse o direito de os receber. Assim se fez, provadamente. Só que, regras ponderadas, "mutatis mutandis", a mutação aproveitou a quem?

Pelo invulgar número de Capelas, a maioria particular, se adivinha e avalia que a povoação era centro riquíssimo onde famílias, com "dinheiro fêmea", o amealhavam do fruto dos solos, grávidos de searas, e do timbre dos gados, pelo quilate das raças. Em desvalor efectivo do património local que, com desvelo e consciência, poderia ser mais abundante, há sempre, em cada lugar, peças que se perderam com o rolar dos anos.

Da Ermida de Santa Catarina, por exemplo, apenas se sabe que se encontrava algures na rua do mesmo nome.

De outra, na rua do Cardoso, restam, como sinal de ter existido, pedras de inconfundível personalidade, portas, janelas gradeadas, cruzes sobre o telhado, mas ninguém lhe conhece o patrono. Acabou em lagar que do mal o menos, espremia, sob as suas prensas, a azeitona que as mulheres apanhavam na azáfama dos rabiscos ou dos partidos e lhes retribuía amigamente com azeite para temperar comidas e aliviar certas dores. como por exemplo, as dos ouvidos.

A da Quinta da Melhorada também não teve melhor sorte. Quem lhe sabe o padroeiro? Mordida, até ao tutano.pelo tempo e pela incúria, resta um portal com a dignidade da velhice, em cuja pedra cimeira alguém gravou, a escopro, 1583. Quem teria sido? O anonimato de quem faz é sempre mistério de magoar. Ao certo, um qualquer pedreiro que nunca pensaria que a capela, em fazenda de fartura, acabasse assim, desolada e sem elevação.

A de São Sebastião, construída pelo povo em 1570, ali no começo da rua da Alagoa, em louvação ao Santo Mártir que intercedeu por ele para o livrar da peste ruim que assolava o Reino. Como prelúdio dos fados de Alcácer-Quibir? Ou como aviso? Cumprida pelo povo que não ignorou a promessa, mostra-se, há um ror de anos, em ruínas. Recuperáveis como são, devem ser um convite ou um apelo à consciência dos homens para rematerializarem a obra dos seus antepassados.

Entre parêntises: se a população de Azinhaga a erigiu, mesmo com o selo de um voto, foi porque, até com sacrífcios, tinha possibilidades económicas para isso. Atingira, na escala de valores da época, um nível que, depois e até hoje, as circunstâncias teimam em negar-lhe.

No prolongamento da frontaria do palácio, até perto do portão de ferro, onde se lê a data de 1831, a Capela da Broa, ou antes de Nossa Senhora da Conceição, branca por fora, tem, interiormente paredes estucadas com desenhos de várias cores, embora com predominância do rosa aberto. O lambrim é forrado com azulejos azuis e brancos, Oitocentistas, que emprestam ao todo, uma dignidade simples, mas solene. O tecto, em abóbada, tem, ao centro, um quadro com duas elegantes figuras. Altar com pinturas e talha dourada, portas laterais trabalhadas com esmero, enquanto as cinco janelas, também de boa madeira, possuem grades de ferro forjado com ornatos de raro efeito. Comunica com o palácio por uma porta que lhe fica ao fundo. No seu interior, pode vêr-se um túmulo em pedra, de elegante recorte onde se lê a inscrição:

"AQUI JAZ RAFAEL JOSÉ DA CUNHA O VIRTUOSO AMIGO DOS POBRES E O CONSIDERADO PRÍNCEPE DOS LAVRADORES DE PORTUGAL

NASCEU EM CASTELO BRANCO NO DIA Io DE ABRIL DE 1791 E MOR­REU NA SUA QUINTA DA BROA AOS 27 DE ABRIL DE 1868 1PN 1 A M POR SUA ALMA"

Sobre a tampa do túmulo, em forma da abóbada, encontra-se sepultado um cão, grande amigo do Lavrador que também nutria por ele desvelado carinho.

Pertença do antigo solar dos Juzartes, destruído pelo sismo de 1755, a Capela de S. João Baptista da Ventosa, isolada em pleno espargal, não terá, exterior e interiormente, grande interesse arquitectural que a individualize e lhe empreste nota própria. Vale, sobretudo, pelo seu invulgar significado histórico. Foi unida, em 1517, á Sacrossanta Basílica Papal Lateranense, de Roma. Por "esta união sé confirmaram as Letras", que significa "sentido expresso nos textos" que foram conferidos à "referida Igreja", por "muitas e preciosas indulgências a ser ganhas pelos fiéis que a visitarem em certos dias do ano". Não diz, porém, o "Inventário Artístico de Portugal", que indulgências seriam e quais os dias em que deveria ser visitada. O portal, em arco bem desenhado, tem diversas meias-esferas e cordas entrançadas que dão à porta relevo manuelino.

Por cima, um brasão da família e, sobre este, um escudo, com tríplice tiara papal, mostrando a inscrição:

"ICR FILIAL DE S. JOÃO DE LATRÃO".

Estranha-se que para uns seja Ermida e para outros Igreja.

Parece-nos que não faz sentido que um Papa "unisse" uma pobre e simples Capela à "Sacrossanta Basílica Lateranense. de Roma".

Sabendo-se que o solar dos Juzartes foi destruído em 1755, pelo terramoto de Lisboa, não custa admitir que a Igreja, tão cerca dele, tivesse ruído também. Isso levaria a que os seus proprietários, quando reconstruíram o solar, tivessem erigi­do, não de facto uma Igreja, mas. talvez por menos recursos, apenas uma Capela, como tantas outras, do altar-mor do antigo templo. Deste modo, e apesar da sua humildade, continuou a usufruir de todas as benesses papais. Embora a influência da família continuasse grande junto do Alto Clero, a verdade é que "as muitas e preciosas indulgências" lhe foram mais tarde retiradas. Por já não ser Igreja? Ou por estarem desactualizadas?

Sob o ponto de vista conceptual, a Ermida do Divino Espírito Santo é uma construção humilde. Exteriormente, as suas linhas são puras, graciosas na simplicidade rústica que revelam. Dir-se-ia imporem à fachada uma ordem alegre, embora com seu quê de misticismo. E, no entanto, mais um templo Quinhentista que tem gravado, entre losangos e ovais, na pedra cimeira do portal:

"SP RITO S SAN TO".

Dentro possui, na parte posterior do altar, também ele simples e modesto, um retábulo do séc. XVIII da Adoração do Espírito Santo, pintado a óleo sobre tela. Na banqueta, seis famosas jarras do Juncal, de faiança, sendo uma delas pintada a azul sobre esmalte branco.

Sua,é a coroa de prata que representa o Espírito Santo aquando dos festejos em sua honra, razão pela qual a população do lugar a respeita e venera.

O Infatado do séc. XIV ao séc. XIX. era, na paróquia, proprietário de enorme fortuna na qual se destacam quilómetros de terras lezírentas, entre Tejo e Almonda, denominadas "Praias". Terreno fértil, rasgado por muitos braços de água e não menos alvercas. Doentio pelo pantanal em que se transformou, ao longo dos anos, afugentando de si, e daqui, os homens receosos da maleita das sezões.

Os animais, grande parte em estado selvagem, esses, por inconscientes permaneciam atraídos pelo regalo de sucolentas pastagens. Sobretudo, o gado equídeo e vacuum que. de bravio, pertencia a quem o apanhava em lutas sempre recordadas com paixão e jactância.

Para explorar as terras e lhes extrair o proveito, preciso se tornaria dominar primeiro as águas. Não, as correntes, mas as outras, as paradas, que, por sê-lo, se tornaram charcos. Dentro de uma política de novo alcance económico, necessário ao prosseguimento das Descobertas, forçoso seria, "quem o seu não vê o diabo o leva", a permanência constante do seu proprietário. Por isso, o Infante D. Fernando, Duque da Guarda, filho terceiro de D. Manuel I e de D. Maria de Castela, resolveu a sua administração "in loco". Para tanto, mandou construir no lugar, propriamente no Largo do Arnado, fronteiro ao Almonda, um edifício "de grande envergadura", composto por habitação de dois pisos, capela e celeiros para recolha de dízimas.

A obra, outra esperança de Quinhentos para Azinhaga, ficou, contudo inacabada a partir de 1534. Frei Luís de Sousa referencia nos seus "Anais de D. João III" o sonho que o Príncipe tivera na, por fatalidade, última vez que pernoitara no solar dos Senões. Nesse "sonho de desgraça" vira o Infante, perfeitamente visto, ante o pranto das carpideiras, a lúgubre saída de três ataúdes, de sua casa, em Abrantes, com os restos mortais de sua mulher. D. Guiomar Coutinho. 5a Condessa de Marialva, de sua filha e dele mesmo.

Impressionado com o pesadelo abalou, madrugada negra para não mais voltar.

Premonição trágica, porquanto as duas Infantas haviam, efectivamente, perecido, no terror de um grande incêndio.

Pouco depois, D. Fernando ouvindo sempre, e agora num crescendo, os gritos aflitivos dos seus e as gargalhadas do crepitar das chamas, desistiu de viver não resistindo, pesaroso, ao chamamento da morte em 7 de Novembro de 1534, com apenas 27 anos.

Apesar de obra nunca terminada, é de notar, no conjunto, o pórtico manuelino, pobre, mas manuelino, da Ermida que jamais chegou a ser de Santo António. Será, porém, de quantas derruíram, a única com hipóteses de recuperação, uma vez que todo o seu corpo se encontra intacto.

Se a tragédia que se contou não tivesse sido verdade, é caso para se perguntar o que seria hoje Azinhaga.

Em adicional ao que se disse relativamente ao Infantado, no livro "Narcóticos" que inclui a narrativa histórica "Traços de D. João III". Camilo Castelo Branco escreve: "Os dois Infantes Henrique e Duarte estavam na Azinhaga com seu irmão o Cardeal D. Afonso que os dirigia no estudo de latim. D. Duarte, uma vez, fingiu-se doente para não conjugar um verbo com o mestre Gaspar Moreira. Houve grande temor na família receosa de que a doença fosse peste".

Como as notícias, incluindo as más. não corriam céleres nesse tempo devido à falta de comunicações, é lícito pensar-se que se a família se preocupou foi porque, no momento, se encontrava em Azinhaga com a respectiva comitiva. Ora, se o Palácio de D. Fernando quando muito estaria em construção, onde se alojavam? No solar dos Juzartes, em S. João da Ventosa, ou. dentro da aldeia, no dos Figueiredos ou no dos Serrões? Na Quinta d'El-Rei? Onde. se nunca se vislumbraram aqui, ruínas de qualquer edifício de vulto, digno de rei? E se o houvesse, porque mandaria o Infante construir um outro no Largo do Arnado?

Para os interessados, acrescentaremos, como curiosidade, quem foram estas personagens.

Os três Infantes eram filhos de D. Manuel I, logo, irmãos de D. João III e de D. Fernando. O pai, de três casamentos, "houve" treze filhos.

D. Afonso que já era Cardeal do Reino em cardeal se finou; D. Duarte, Duque de Guimarães, casou com D. Isabel, filha de D. Jaime, 4o Duque de Bragança; e D. Henrique, o Cardeal-Infante que herdou a coroa por morte, em Alcácer-Quibir, de seu sobrinho-neto. D. Sebastião, o Desejado.

Dando voz ao "Inventário Artístico de Portugal", "A Ermida de S. José, propriedade particular da família Serrão de Faria Pereira, cujo solar", parte Quinhentista e parte Seiscentista, "de nobre aspecto, brasonado, lhe fica fronteiro. Vasta e magnífica Ermida Seiscentista, que ainda milagrosamente se conserva íntegra, sem qualquer atentado de reforma, impressionando pelo aspecto original rico de côr e de efeitos decorativos. O corpo do templo é totalmente revestido de azulejos da sua época, azuis e amarelos, do tipo "padrão" na parte superior, e na parte inferior de "joalharia".

O púlpito de base de pedra e gradaria de pau santo com aplicações de metal, abre-se na parede do lado da Epístola. O coro de pau-santo, tem gradaria assente sobre duas colunas, e o tecto do sub-coro, é formado por dez caixotões, pintados e dourados com ornatos de estilo Renascença. O corpo do templo, opulento de côr e de caracter, é composto de ornatos, frutos e "cartouches" (com legenda a oiro "Jesus, Maria, José") e por nove quadros alusivos à vida do orago, com a curiosidade, muito da época, de todas as personagens estarem vestidas à moda do séc. XVII. Num deles vê-se o portal e o frontespício da própria ermida.

A capela-mor é revestida, também, de azulejos de ornatos, azuis, fabricados em Toledo, azulejos que igualmente formam o silhar da sacristia do templo. O tecto é formado por vinte caixotões, com características pinturas da época, alusivas à vida da Sagrada Família. O frontal do altar-mor. muito interessante é pintado a imitar uma tapeçaria (séc. XVII)", sendo o retábulo de preciosa talha dourada, com baixo relevo "policromado" figurando o casamento de S. José".

O único sino da capela tem uma legenda, na cinta que diz: "A mim me mandou fazer Gaspar Serrão—1634".

Foi há anos considerada Monumento de Interesse Público.

Embora nem sempre coincidentes no tempo, pelas Igrejas e Ermidas existentes no lugar se compreende que o "Dicionário Geográfico de Portugal" nos informe que "A antiga freguesia de Santa Maria de Azinhaga (ou do Almonda) era vigaria de apre­sentação do cabido da Sé de Lisboa. O prior tinha a renda anual de 100 000 reis, era primeiro apresentado pelo Papa e depois passou a ser apresentado da Mitra", não por quebra de importância, mas, de certo, para maior rapidez na sua nomeação. "O prior apresentava o cura que tinha de renda um moio de trigo, uma pipa de vinho e 4 000 reis em dinheiro".

E da tradição que a localidade chegou a ter um prior e oito curas nas Capelas.

Segundo vários documentos "Azinhaga foi antigamente vila independente: e tanto assim que a sua classificação de Vila mostra-se no testamento com que faleceu El--Rei D. João IV, o Restaurador. Nesse testamento, deixa à Princesa D. Maria, sua filha legítima, a comenda da Ordem de S. Tiago, de Torres Vedras e Colares e sitíos de Azinhaga e do Cartaxo com todos os seus rendimentos e estes elevados a Vilas bem como 50 000 cruzados em dinheiro com tratamento de Alteza". Apesar do texto do documento ser caótico e confuso, até incompreensível, não é, por tal descalabro, que lhe damos menos crédito. Mas, porque o Prof. Veríssimo Serrão, nos diz que "D. João IV teve uma filha ilegítima, de mãe desconhecida" acrescentando na sua "História de Portugal" que "D. Maria (n. em Lisboa em 30 de Abril de 1644 e f. em Carnide a 7 de Fevereiro de 1693, no Convento das Carmelitas Descalças), foi reconhecida pelo progenitor, o qual lhe fez mercê das vilas de Torres Vedras e Colares e dos lugares de Azinhaga e Cartaxo, tendo-se dado à vida religiosa".

Não é a mesma coisa.

Por outro lado, não se põe em causa que Azinhaga, por quanto foi, mercesse ser elevada a vila. Mas o facto é que o não foi, por muito que isto tivesse pesado aos seus habitantes de então.

A cerca desta dúvida, esclarece-nos ainda o Prof. Veríssimo Serrão que Salvador Correia de Sá pediu a D. Afonso VI "a elevação a vila do lugar do Cartaxo, o mesmo acontecendo com o lugar de Azinhaga, no termo de Santarém". Repare-se: se Azinhaga e Cartaxo tivessem sido, realmente, elevadas a vila no reinado de D. João IV, porquê o mesmíssimo pedido a seu filho, D. Afonso VI? Nem Salvador Correia de Sá, o heróico libertador do Brasil e de Angola do domínio holandês, se atreveria a tal duplicação.

Perante a petição, "... a Câmara de Santarém protestou como a mais nobre e autorizada do Reino e que precede de muitas cidades dela (Santarém ao tempo era vila), por uma desanexação que ia prejudicar a cabeça do termo" Aqui, a verdadeira dificuldade a superar. Só que "Aceitando a argumentação do Concelho, a Coroa recusou o pedido". Para desagrado dos azinhagueiros, talvez D. Afonso VI estivesse de maus humores...

Logo, Azinhaga nunca chegou a ser vila, e muito menos independente, reconhecendo, todavia, o "Dicionário Geográfico de Portugal" que "esta terra tem dou juízes, que enquanto às sizas, são ordinários, e. quanto ao mais, são vinteneiros sujeitos à Câmara e mais justiça da vila de Santarém: tem porém, concelho com cadeia, Casa de audiência e Açougues: tem oficiais, alcaide, procuradores do concelho, dous escrivães, um judicial e outro das sizas. e um porteiro". Percebeu-se. pois. as razões que levaram a vila de Santarém a opôr-se.

Azinhaga em fins do século XVIII, começos do XIX. "tinha uma população de 1500 habitantes e, como freguesia rural o seu rendimento colectável era, talvez, o maior do País".

Prova-se este valor porquanto, cerca de 150 anos depois, a quotização da sua Casa do Povo, também ela lançada a partir de uma percentagem sobre o imposto colectável de cada proprietário, a tornasse, sem discussão, na mais próspera do País. Sem indústria, "essencialmente agrícola e pastoril, diz o Dr. Francisco Câncio, vive somente da terra, sofrendo as calamidades das inundações e, mais ainda, pelas faltas periódicas de trabalho, os rurais têm uma vida de miséria devido ao regime de exploração da propriedade que se divide em quatro casas de lavoura, sendo duas de opulenta abastança".

Posto esta constatação que marcou, de forma indelével, gerações de camponeses, a freguesia possui ao seu redor, como que um colar de pérolas que não é deles, mas de poucos. Umas mais preciosas do que outras, mas todas pérolas, são (esquecendo as terras do Infantado, agora da Companhia das Lezírias) as quintas que a abraçam brotando riqueza que colhem de si mesmas e não dividem nunca. Ignorando a Lagareira, o Casal Rebelo, o Casal Centeio, o Casal Serrão e o Casal Lourenço que, na sua pequeneza apenas conseguem uma economia de subsistência, as Quintas dvEI-Rei, do Meirinho, da Melhorada, da Cholda, das Teixeiras, de Miranda, do Paul do Boquilobo, da Broa, de S. João e de D. Inês, elas sim, a desfazerem-se em frutos que, juntos ao maná das lezírias, dão em cada 29 de Setembro, milagrosos resultados.

A Casa de Lavoura mais antiga e das mais respeitadas da localidade pertenceu, há séculos, em extensão e poder, à família Serrão que, muitos anos depois, por casamento, se passou a chamar Serrão de Faria Pereira ou, como é mais conhecida, apenas Serrão de Faria. O seu ferro mantém somente estas duas iniciais. Com o decorrer das épocas foi perdendo a sua importância agro-pecuária, devido a sucessivas partilhas pelos seus numerosos herdeiros. A Casa-mãe reduziu-se, é certo, embora mantenha mais do que o suficiente para subsistir dignamente. Mas, para além de tudo, é de salientar que, com sucessos e declínios, ainda exista ao fim de 500 anos, por muito que pesem em todas as vidas, os embaraços do tempo.

Mesmo em arbitrária ordem cronológica, referir-nos-emos apenas, às casas agrícolas que possuam na freguesia, pelo menos alguma propriedade importante. Neste contexto, a família Rio Maior, oriunda de Saldanhas, Juzartes, Sousas, Oliveira e Daun, é uma das que, por direito do sangue e da terra, se encontra profundamente enraizada em Azinhaga.

A sede da sua agricultura encontra-se na Quinta de S. João da Ventosa. Aqui foram .instruidos no começo do séc. XVI, um magnífico solar, uma Igreja que não uma Ermida, como se crê, casas para criados, quartéis, celeiros, lagares, cocheiras, cavalariças, enfim, pertenças necessárias a uma exploração organizada, como parece ter sido.

Já sabemos que a Quinta foi totalmente arrasada pelo terramoto de 1755, que, no seu minuto de fúria, nada poupou aos homens e às suas coisas. E, sobre as lágrimas choradas, alguém eternizou o seu elo de união com a terra.

Com coragem e perseverança, não se tentou a reconstrução do antigo solar nem dos restantes anexos. Por mais dispendiosa. E morosa, também. Urgia fazer depressa. Construíram, agora, ponderadamente, noutro local da propriedade, em substituição dos imóveis perdidos, um novo solar, nada "magnífico", mas senho-e digno, assim como, os agregados precisos para o prosseguimento da exploração agro-pecuária.

E fez-se, sobranceiro ao Almonda, no sítio exacto onde ainda se assinala o que resta do novo solar consumido, por um incêndio, nas primeiras décadas do séc. XIX. Sorte, que nas suas frequentes visitas, o Marechal Saldanha se não encontrar lá nessa noite de loucura.

Visíveis, também, o fantasma do grande pátio que antecedia o palácio nobre e as sombras do casario destinado ao pessoal, a gados e a alfaias. a Igreja, decerto menos danificada, ou por unção religiosa, se relevantou no resmo lugar, embora como simples Capela, mantendo, por hábito, ou por favor da Hierarquia, o nome igual de S. João de Latrão.

Repare-se, contudo: quem a olha de frente, encontra-a totalmente desenquadrada, não só do que foi o novo solar para quem está (esteve) quase de costas, como até do rio: e da própria estrada. Desenraizada das pedras que foram casas, dir-se-ia cumprir o destino da sua própria solidão. Sem nada que lhe dê vida. Erma, no espargal, dos edifícios que a circundavam, como vizinhos, a quem servia quando dela se serviam. Paralelamente à de S. João, a família possuía na Quinta de Miranda, enorme de olivais, lezírias e charnecas de sobros, o seu maior potencial fazedor de riquezas. De tudo criava oiro: do vinho ao azeite, do trigo à cortiça, da lenha às espadanas, do milho ao linho, dos porcos às cabras, das ovelhas às eguadas. Mas, no Ribatejo, os toiros são sempre toiros. Mesmo quando dão prejuízo. A ganadaria Rio Maior será das mais antigas existentes em Portugal. Desde meados do séc. XVII.

Dos livros de Receitas e Despesas do Morgado da Ventosa, existentes no Cartório da Casa da Anunciada, em Lisboa, extraiu o Marquês de Rio Maior que "no ano agrícola de 1645/46, o Morgado João Saldanha e Sousa, um dos conjurados de 1640, já criava gado bravo". O maioral ou "Vaqueiro das vacas bravas, como então lhe chamavam, era no ano de 1678/79, Manuel Dias, natural de Azinhaga... Sabe-se que Manuel Dias recebia de partido, cada ano vencido em 29 de Setembro (dia de S. Miguel), seis alqueires de trigo e sessenta e quatro alqueires de pão baixo, um alqueire de trigo por cada uma das festas do Natal, da Páscoa e do Espírito Santo, um alqueire de favas semeadas, 2 000 réis em dinheiro e, em cada mês, cinco alqueires de pão e canada e meia de azeite. O maioral dispunha de terra para semear um alqueire de favas e dois alqueires de linho".

Pão baixo era uma mistura de trigo e cevada ou. mais excepcionalmente, de trigo e centeio. Não se diz se o alqueire era de Azinhaga se de Santarém, cujas medidas são diferentes. Cada canada corresponde a quatro quartilhos ou seja, aos actuais dois litros.

Referindo-se ainda à sua ganadaria, o Marquês dá-nos esta curiosidade: "No festejo de aplauso ao nascimento da Senhora Infanta D. Maria da Assunção, filha do Rei D. João VI" houve uma corrida que se realizou em 8 de Setembro de 1805, na praça do Salitre, na qual foram lidados 20 toiros, um dos quais "pertença do Conde de Rio Maior, Morgado do vínculo de S. João da Ventosa" ..."que levava, como divisa, uma fita verde na arma esquerda".

A Casa manteve, durante séculos, uma peara de toiros portugueses, até que em princípios dos anos 40, a ganadaria passou a ter sangue espanhol pela aquisição de vacas Gamero Civico e Soler, padreadas, durante largo tempo, por um extraordinário toiro do Dr. António Silva, de Coruche.

A Quinta da Broa foi, será, a quinta mito, a quinta talismã da fabulosa freguesia de Azinhaga.

Noutras eras, o seu nome era Quinta do Almonda pela situação de privilégio que usufruia junto ao rio entre ricos espargais, onde começam os célebres "olivais de Santarém" e próperas lezírias, a partir das quais se abrem os famosos "campos da Golegã".

Possuía condições naturais de desenvolvimento ao ser cruzada pela estrada-real que, à época, já atravessava no seu caminho, a nova ponte, de um só arco, construída em 1837 sob planta do brigadeiro Jou Vellez, em substituição de outra (romana ?) que lhe ficava a jusante.


Pertenceu, antigamente, à família Zarco da Câmara que, quando a visitava, com maior ou menor assiduidade, se instalava num palacete, (palácio velho, no dizer do povo) de elegantes linhas setecentistas, que impressionava pela sua rara simplicidade. Erguendo-se em frente do actual portão, de que distanciava cerca de 40 metros, lastima-se que tenha sido demolido pela singularidade que emprestava ao ambiente quase idílico do interior da Quinta. E porque marcava uma época de que não há outro exemplo, nas redondezas.

Deram-se, anteriormente, as Invasões Francesas. A nobreza, sobretudo a mais próxima da Corte, ou seguiu D. João VI para o Brasil, ou emigrou para Inglaterra aguardando o futuro. Houve quem permanecesse no país lutando contra os invasores. Mas isto, é outra história.

Seja como fôr, a verdade é que, em todas as convulsões, as classes dominantes, na ânsia de manter o seu "status quo", acabam quase sempre por transformá-lo em detrimento próprio. E os valores imóveis põem-se à venda, sobretudo quando provocadores, como estes, de paludismo, e distantes, como estes, do centro habitacional dos proprietários.

Talvez soasse até que, antes das Invasões, a engenharia francesa, para estudo do futuro avanço do seu exército, fizera um pormenorizado levantamento do panorama agrícola do País. Após o reconhecimento de que as localidades raianas e, ainda, Castelo Branco, Sobreira Formosa e Cardigos estavam sem recursos, o Prof. Veríssimo Serrão acrescenta que "Já a vila de Abrantes abundava em comestíveis e vinho; Pernes não dispunha de cereais mas tinha carne em abundância; e a zona de Santarém e da Azinhaga rica em variadas culturas". Logo, a passagem por Azinhaga estava nos planos do exército francês. Exactamente nessa conjuntura, os irmãos albicastrenses Manuel e Rafael José da Cunha, seus rendeiros, começaram a executar os seus planos. Apesar das tropas invasoras terem deixado, atrás de si, na retirada, um rastro de destruição, isso não impedia que ...

Tanto mais que um velho documento observa que "Desde Vila Franca até Tomar não há gados onde outrora os havia, nos campos de Azambuja, Santarém e Golegã". Sabia-se que o Estado, embora com dificuldade, tentava remediar esta situação. Isto, no-lo observa Nuno Infante de Siqueira em carta datada de 1 de Agosto de 1811, em parte transcrita pelo Prof. Veríssimo Serrão no VII volume da sua "História de Portugal": "Assim, se compreende que o governo tenha criado no lugar de Azinhaga, no termo de Santarém, um depósito de gado vacum para auxílio aos lavradores" -Edital de 1 de Maio de 1811.

O teor deste Edital decidiu-os: se os Condes da Ribeira Grande continuavam ansiosos por vender, eles passaram, por seu turno, a estarem interessadíssimos em comprar. Mas, se as Invasões Francesas foram uma desgraça, a eles deram-lhes sorte. Afeitos ao negócio, conseguiram amealhar um pecúlio, distantíssimo, para cima, do que poderiam ter imaginado. Moeda é dinheiro sujeito a depreciações. Terras são terras. E quanto mais rebaixadas estiverem, mais interesse despertam na gula de quem as compra.

Negócio falado. Apresentaram propostas. Aceitaram contrapropostas. Sorriram e viram sorrisos. Prenúncios de acordo. E, ao fim, com a solenidade de um aperto de mão, compraram a Quinta do Almonda.

Morto o mano Manuel, embora desgotoso, Rafael, dá-se conta de que, ao fim e ao cabo, tem o dobro daquilo que supunha. Ceres protegera-o. E a Ceres soube agradecer no auxílio que prestou aos homens.

Vivendo no palacete dos antigos senhores, mandou construir o enorme palácio que, louvado Deus, ainda lá se encontra, imponente na dignidade da sua traça sóbria. Olha do alto do varandim, no topo norte, a imponência verde das lezírias. E sonha. E cada sonho acrescenta-lhe outra propriedade. Tantas que o povo, agradecido de o servir, lhe chama já o "Rei dos Lavradores".

A sua receita foi simples: fez bem. Aos novos que esmolavam dava trabalho. Mesmo que não houvesse, por mor da seca ou da chuva. Ainda que fosse, acarretarem pedras de um lado para o outro e tornarem a colocá-las no mesmo sítio. Aos velhos que pediam, dava broa. E tantas, tantas, Senhor, que quando a alguém, ao passar com fome lhe perguntavam 'Aonde vais ?", respondia "A broa", que a Quinta do Almonda, dia e noite de portões sempre abertos, por milagre do Homem e reconhecimento dos pobres, se passou a chamar Quinta da Broa. Até à eternidade. Com efeito, pelas dívidas que soube perdoar ao Estado, dizem que refractário à tropa que pusesse ambas as mãos espalmadas em qualquer dos grandes marcos de pedra, de cada lado do portão, o Exército lhe perdoaria desde que o Lavrador o aceitasse nas suas terras.

Quando morreu, quis que o sepultassem na Ermida de Nossas Senhora da Conceição, na ala sul do palácio. Sem descendentes directos deixou a sua imensa fortuna a parentes, afilhados e empregados. E dela se formaram sete das ainda maiores Casas Agrícolas do Ribatejo.

A Broa, sua jóia querida, foi deixada ao sobrinho Manuel Mendes Veiga. Mais tarde, por herança, entrou na posse do Eng. Manuel Tavares Veiga. Devotado republicano continuou, à sua medida, a repartir algo do que recolhia das terras. Para Azinhaga, por exemplo, mandava carradas de lenha aquando do alimpo das oliveiras. E as crianças, sobretudo as doentes, recebiam diariamente o seu quinhão de leite. Aos velhos que mendigavam na Quinta, continuou a dar-lhes broa.

Para além desta quinta a Casa Veiga é, ainda, proprietária, na freguesia, de várias e valiosas serradas, da Quinta das Teixeiras, por antes lá terem morado duas abastadas senhoras com aquele apelido, e da famosa Quinta do Meirinho, cujo nome lhe advém, ao que parece, por ter pertencido, em épocas remotas, a importante "magistrado que por nomeação régia, governava uma comarca".

Mais recentemente, a ganadaria da Casa foi constituída pelos irmãos, Manuel e Carlos Tavares Veiga, com vacas adquiridas ao Eng. Rafael Calado, oriundas de Pinto Barreiros, a quem foram lançados sementais do Dr. António Silva e Oliveira & Irmão. Com uma vacada de 100 rezes, criteriosamente seleccionadas em tentas anu­ais, a ganadaria tem alugado toiros para as principais praças do País, sobressaindo um curro de elite na corrida comemorativa do 50° aniversário da alternativa de Mestre João Núncio.

Dando continuidade ao afamado potril de Azinhaga a coudelaria, fundada,há cerca de 100 anos, pelo Eng. Manuel Tavares Veiga, é sem exageros, a mais afamada de Portugal. Com 120 éguas de raça "Peninsular", hoje natural e racionalmente reconhecida como raça "Lusitana", tem sido alfobre de excepcionais cavalos de toureio, como o "Lidador", "Agareno", "Almansor", "Sultão", "Lusitano", "Berbere", "Gilbardeiro", "Quê-Bá" e "Bailador". Alguns mostraram o luxo da preparação de Mestre Nicolau Pernes a quem, pela arte e marialvismo, chamavam picador de cais e mulheres.

Raros, os cavaleiros nacionais, de ontem e de hoje, que os não tivessem ou tenham incluídos no conjunto das suas quadras. Do mesmo modo, os "rojeneadores" espanhóis lhes dão primazia, porque, como os portugueses, reconhecem que o nervo, a elegância e a graça com que enfrentam os toiros são e serão sempre o primeiro sintoma do êxito almejado.

Provando, no entanto, que os seus cavalos ultrapassam em muito a sua vertente tauromáquica, a Casa Veiga continua a exportá-los para vários países, como por exemplo, o Brasil, a Colômbia, a Espanha, a França, a Inglaterra e a Bélgica.

"Azinhaga, in illo tempore, escreve o "Ribatejo Histórico e Monumental", foi terra insalubre, de difícil adaptação dos seus naturais, mas os seus campos ubérrimos, férteis como os do Nilo, eram pomo cobiçado para aventura para quem corajosamente resistisse às maleitas e tentasse fortuna cultivando-as. Os proprietários das terras fugiam delas e de barato as davam de arrendamento.

Três grandes fortunas se fizeram assim: no séc. XVIII, Manuel Correia da Silveira e Brito; no séc. XIX, Manuel e Rafael José da Cunha; no séc. XX, João da Assunção Coimbra.

Começaram como rendeiros e acabaram por ser donos das terras arrendadas".

No livro "Santarém Quinhentista" pode ler-se que "Na carta de coutada passada em 1544 por D. João III a António Saldanha para a Quinta da Melhorada (entre a ponte do Alviela e a Azinhaga) foram ordenadas as seguintes coimas: por corte do sobreiro ou árvore de fruto, 1 000 réis; por carga de lenha, 100 réis; por cabeça de gado vacum, 20 réis; por rebanho miúdo de porcos (a 20 cabeças por rebanho) 20 réis; por besta cavalar ou muar, 20 réis. Metade destes proventos reverteria a favor de quem acusasse e a outra metade destinava-se à libertação dos cativos". António Saldanha, que deu o nome à "Aguada de Saldanha", aquém do cabo da Boa Esperança, foi heróico marinheiro que lutou, no Oriente, ao lado de Afonso de Albuquerque. Como general, fez parte da armada que D. João III enviou a Tunes em auxílio de Carlos V, de Espanha. Segundo o Marquês de Rio Maior, este seu antepassado era, ao tempo, Comendador de Casével na Ordem de Cristo. Se carta era, também, documento oficial, no caso emitido pelo próprio Rei, para defesa e conservação de terras demarcadas e seus gados, é lícito admitir-se que António Saldanha seria proprietário, rendeiro ou administrador da Quinta, porquanto não teria qualquer lucro nas coimas a cobrar. Ou melhor, talvez fosse ele mesmo a pagá-las em caso de prevaricação.

Se efectivamente António Saldanha fosse seu proprietário, então tudo certo. Ao invés. seu rendeiro, ou administrador, é de crer que a fazenda pertencesse à Coroa e que só em 1544 se tivesse regulamentado a sua exploração.

Como a Ermida se concluiu em 1583, parece natural que, entre as duas datas, se tivesse iniciado e terminado as obras de construção de habitações, celeiros, lagar, cavalariças, palheiros, malhadas, alpendres, afinal os precisos para uma eficiente casa de lavoura.

Que tudo ruiu, isso ruiu, uma vez que, na Quinta, são hoje raros os vestígios de qualquer edifício.

A Melhorada, comparativamente com as actuais dimensões, foi um autêntico colosso. Apesar de tudo, não deixa de ser, conjuntamente com o Paul, uma das maiores propriedades da Paróquia. Porque é imensa, com boas terras de semadura em imponentes espargais, montados de sobreiros e bosques de azinheiras. Na sua pecuária, recuas de porcos, fatos de cabras, manadas de ovelhas, de éguas, de vacas mansas e bravas. E de bezerros, novilhos, toiros de que foi maioral real o incomparável campino, mestre Francisco Felício que, iniciado em tralhoeiro, chegou apenas com 17 anos (pasme-se), no eletismo da hierarquia, a maioral mor das tralhoadas da casa Carlos Marques, de Azinhaga.

Nas fainas duras do aproveitamento do chão, recordam-se na lavragem, o chouto nervoso dos bois das amancias e, na gradagem, o socego bucólico de um ror de cobras de éguas conduzidas por rapazes.

Pertença de quem tivesse sido, admite-se que o sismo de 1755 a destruiu totalmente, como aconteceu, na zona, ao lugar de Cholda-Bolda e à Quinta de S. João da Ventosa. Em consequência, intui-se que, os donos, os rendeiros ou os admistradores a tenham abandonado para refúgio em lugar menos inóspito. Que pântanos e charcos também predominavam aqui.

No caminhar do tempo, de que se perdeu a memória, a Melhorada ficou esquecida de si e das suas potencialidades. Até que os Carqueijas apareceram como seus pos­suidores. Da Cholda e da Quinta dvEl-Rei. Da sua capacidade de lavradores, nada a acrescentar. Como vieram se foram, ignorados.

Depois, sim, o Dr. Máximo Falcão, senhor da Cardiga, que adquirira à família Lamas, interessa-se por ela. Por ela, pela Colda e pela Quinta d~EI-Rei que o destino quis juntar sempre nas mãos do mesmo proprietário.

Foi, durante anos, seu feitor, o goleganense Carlos Albano Nunes, homem conhecedor e experiente no jogo da agricultura.

Após a morte do velho senhor, herdou o seu posto, e o resto, seu genro, o alemão Luís Sommer que, tendo enviuvado da primeira, casou com a segunda filha do Dr. Máximo Falcão.

Com o eclodir da Primeira Grande Guerra, temendo serem-lhe negados os créditos bancários para a conclusão da fábrica de cimentos da Maceira do Liz, propôs-se vender as suas propriedades de Azinhaga. Escolheu, até, o comprador: João da Assunção Coimbra que. em boa verdade, já era seu rendeiro desde os últimos anos de vida do velho proprietário. Figura que o trabalho e o senso impuseram, aos poucos, à inveja dos demais concorrentes, o escolhido, nem por ser oriundo dos Bairros, deixou de se entender e perceber as novas exigências do chão quente dos espargais e dos solos húmidos das lezírias. Se soubera ser rendeiro, melhor seria seu dono.

Não é nossa intenção ultrapassarmos os limites da freguesia de Azinhaga. Mas, não custa adiantar, que João da Assunção Coimbra tratou com argúcia e extraordinária visão a máquina dos seus negócios. Pelo conhecimento empírico que possuía do valor efectivo de cada terra, segundo cada local, nunca se equivocou numa proposta. E, por último, auxiliado por seu filho Joaquim da Assunção Coimbra, adquiriu tudo quanto de bom lhe apareceu em propriedade rústica. Soube, além do mais, aproveitar, como ninguém, as épocas post duas guerras durante as quais os velhos proprietários, por necessidade ou novas motivações, as quiseram ou tiveram que vender. Deste modo, se confirmou a profecia de que os terrenos fertilíssimos de Azinhaga criam, em cada século, um novo rei dos lavradores.

Seguramente que a Melhorada é única. Mais pequena, da Cholda, rica como ela, se diz que teria sido o lugar de Cholda-Bolda, arrasado também pelo terramoto de 1755. Restos de ruínas encontravam-se ao acaso. E, de duas, uma: ou era, de facto, um aglomerado populacional que, ao tempo, estaria para a freguesia, como hoje o está Mato de Miranda para Azinhaga, ou, então, seria uma imensa quinta, quase colónia, com bastante gente e muitos gados. Em qualquer dos casos, nos admiramos não haver conhecimento de ter existido capela.

A Quinta d^EI-Rei teve, nos seus baixios, porto, pousada e estaleiros Quinhentistas. Mais do que provado. Com tal nome, propriedade real? Admite-se, se não esque­cermos que as terras do Infantado, ali mesmo defronte eram quilómetros que se não resumiam apenas às "Praias". Por outro lado, não custa pensar que tivesse sido residência de qualquer funcionário estatal ou da Coroa encarregado da superintendência do movimento fluvial. Da residência é que não há nem a luz de um só vestígio.

Do que as cheias levaram, nada fará voltar. O passado perdeu-se na sua própria escuridão. Até, na reminiscência de um sinal que desse aos arqueólogos uma qualquer hipótese.

De concreto, mais nada que ser outra das inúmeras propriedades da Casa Coimbra, existentes na freguesia.

A pecuária foi factor decisivo no engrandecimento do lavrador. Desde a tralhoada, a maior do Ribatejo, às manadas de muito gado. Mas foram os cavalos e os toiros, prin­cipalmente os toiros, que lhe deram renome internacional.

A coudelaria tem o seu habitat natural na área de Azinhaga. Formada inicialmente com éguas de Mascarenhas Pedroso, aumentada, mais tarde, com outras do conde ie Castelo Melhor, de sangue "Peninsular". Deste ramo, se fundou e criou a actual eguada, purificada, a principio com os sementais Veiga, "Mondego" e "Pérola". Seguiu-se, depois, o garanhão Alter-Real "Que Génio", filho do celebérrimo ""Gaivoto", havendo também outros, entre os quais, um de Rasquilho. Para maior unidade da coudelaria, utilizaram-se, de novo, cavalos Veiga, com inegável sucesso. A ganadaria da Casa foi fundada em 1932 com uma vacada adquirida a José António Vives do Rio, cujas rezes precedem de vacas e sementais da Marquesa de Tamaron, da mais pura ascendência Parladé.

Com ferro e divisa encarnada e branca usados por Alves do Rio estreou-se, a 8 de Outubro de 1933, na Praça de Barcelona, apresentando seis toiros que foram lidados pelos "diestros" Vicente Barrerra, Fernando Dominguez e Florentino Ballesteros. O sangue das rezes foi refrescado com um semental de origem Gamero Cívico, adquirido i Juan Belmonte que, ao longo dos anos, se revelou padreador extra­ordinário pelo tipo, presença e bravura dos seus filhos.

Desde a sua fundação, a ganadaria havia de demonstrar em praças de Porlugal, Espanha e França, uma qualidade rara devido a seus toiros nobres e encastados.

No seu historial contam-se algumas rezes fora de série, tais como: "Zagalo", "Jabato", "Clarim" e "Fadista" que, por si, demonstraram nas arenas a enorme vitalidade da ganadaria Coimbra.

Nas tentas esteve sempre presente o cuidado, conhecimento e a disciplina mantida, ao longo de cada temporada, na selecção das suas vacas.

Inês foi senhora de quem se sabe, apenas, ter sido a primeira dona da quinta. Por via disso, o povo lhe botou Quinta de Dona Inês. Ora, se a voz do povo é a voz de Deus, estranha-se que. já em meados deste século, lhe tivessem posto Santa Inês. Mas, qual ?

Embora não conste que alguma tivesse passado por aqui, qual delas, a de Montepulciano, de 1277, ou a de Roma ainda anterior àquela ?

O chamamento que se dá a uma coisa, seja qual fôr, não pode estar dissociado das pessoas nem do meio onde se insere. Desta maneira, devemos continuar a chamar-lhe Quinta de D. Inês. Não por ser mais antigo. Mas, por mais íntimo e mais nosso.

Será a mais pequena, mas, por ser menina, é de todas a mais bonita.

Nunca foi um centro agrícola, embora os olivais, ao seu redor, sejam trabalhados no quotidiano da vida que urge não suspender.

Pertencendo, desde o século anterior à família Simões do Couto, tornou-se, a certa altura, local de veraneio dos seus proprietários.

Possui, entre muros, uma grande horta que se trata a contento. A água, para viçar as novidades, murmura nas regadeiras, saída de um poço, cercado por um alpendre redondo, onde um pachorrento boi dá voltas sobre voltas na obrigação de mover a nora. E a nora e os alcatruzes chiam, e a nora e os alcatruzes cantam endechas que a noite a outra noite transmite. Suavemente tristes, suavemente doces. No bucolismo do sítio, a hera trepa por onde pode. em zigue-zagues de verde, até à beira dos telhados. E nas paredes do tanque. Um jardim, sempre jovem, explode no desabrochar pacífico das flores.

A seguir, a casa. Sem ser velha, o tempo ali a conhece, junto à estrada, antes mesmo de ser como ela está. Por ser vulgar. Não pobre, mas vulgar no risco de cada linha. Sem vaidade, dir-se-ia traça bem enquadrada no resto do ambiente. Transformação aqui, modificação ali, sobressai, entre oliveiras, como uma mancha branca e amarela estupenda de alegria. As janelas de parapeito equilibram, em cada andar, o estender das paredes. Das portas vermelhas, que convidam a entrar, também se pode sair. A varanda, então, é um encanto. Elegante, na perspectiva de colunas de pedra e arcos de curvas nobres.

Depois, é linda. Sem pretensões. Simpática. Isso, simpática. Mulher a quem faltará um tanto mais de vida no quê amargo da sua solidão.

Portugal atravessava a maior crise da sua ainda curta nacionalidade. Tão grave que lhe poderia custar a própria independência.

Após a morte do Rei D. Fernando sem sucessor varão, a herdeira do trono seria, legalmente, sua filha D. Beatriz. Até aqui, tudo certo. Só que a Infanta era casada com D. João I, de Castela. Se, por um lado, os portugueses lhe não negavam esse direito, por outro, era lógico temer-se que o Rei espanhol quisesse usufruir dessa possibilidade e se coroasse, ele mesmo, Rei de Portugal, na mesma altura em que a mulher, a Rainha.

Sendo verdade que o País contava já um arreigado e feroz sentido de portugalidade, os povos autócnes, preocupados com a eventualidade da sua anexação, e sequente perda de liberdade nacional, opunham-se com vigor à concretização dessa "legalidade dinástica". Logo, aceitar D. Beatriz como herdeira do trono de Portugal, por mais legítimo que lhes parecesse (e era), não seria, em contrapartida, oferecer em bandeja de ouro a governação do País a um marido que até era o Rei de Castela ? Quais as vantagens ?

Como nem sempre a razão legal é a razão moral e, neste caso, a nacional, os portugueses custasse o que custasse, tentariam evitar, ou evitariam mesmo, que diri­gentes estrangeiros tomassem o poder na terra que era independente e sua há mais de 200 anos.

A população de Lisboa, alertada por Alvaro Pais, enfrenta Leonor Telles que não quer perder os privilégios conseguidos, como Rainha, em vida de D. Fernando I. Luta pelos direitos da filha. Ser raínha-mãe, preferível em qualquer caso, a continuar, apenas e só, amante do Conde de Andeiro.

Os populares não desistem e a revolta, a exemplo da capital, alastra a todo o País. Assente, pelo menos nos ânimos, que D. Beatriz, e por extensão o marido, se não se sentariam nunca no trono de Portugal.

Preciso um rei que fosse português. Mas qual, entre os descentes bastardos de D. Pedro I e, assim, irmão do falecido Rei D. Fernando? D. João ou D. Diniz, filhos de Inês de Castro, ou D. João, o Mestre de Avis, filho de Teresa Lourenço? Teriam todos apoiantes e detractores. Teriam. Os filhos de D. Inês de Castro, os mais naturais, quase nem chegaram a ser ponderados porque, em determinado momento da crise, apoiaram as pretensões da sobrinha, a Infanta D. Beatriz. Restou o Mestre de Avis.

O povo de Lisboa exigiu-lhe (exigiu-lhe é o termo) que tomasse as rédeas do poder. Por sua vez, D. Nuno Alvares Pereira e o Dr. João das Regras, um com as armas, o outro com a Lei, prometeram-lhe ajuda para o que, em boa verdade, não seria o seu intento.

Ante o perigo de uma Invasão castelhana, reunem-se as Cortes de Coimbra. Nelas, o Dr. João das Regras, jurisconsulto formado pela Universidade de Bolonha, faz ouvir, alto e sem tibiezas, os direitos do Mestre, como filho de D. Pedro I, em suceder a seu irmão D. Fernando, muito pelo sangue, mais pelos serviços que prestara em defesa do Reino, durante o cerco de Lisboa. O povo queria-o. Situação legalizada, de forma clara e credível, "Todos os presentes, como nos diz o Prof. Veríssimo Serrão, concordaram e, a 6 de Abril de 1385, assinava-se o auto de eleição do fundador da dinastia de Avis".

Afinal, os reis também se elegem.

Havendo um Rei, aceite pelo povo, os problemas internos estavam resolvidos. Necessário agora, proteger esse Rei e defender pelas armas, a integridade do País. Vencidas as batalhas de Almeida, Trancoso, Valverde, Atoleiros, Aljubarrota ... o exército, sob o comando do Condestável Nun' Alvares, sancionou pelo fogo, o que outros conquistaram pelo voto. Depois, a paz.

As dívidas pagam-se. E o Mestre de Avis, como D. João I, de Portugal, não se eximiu a elas. Não houve favor que não fosse recompensado. Todos receberam o seu quinhão. O jurisconsulto, Dr. João das Regras, também. Com a legenda "E melhor lhe dera se melhor houvera" o novo Rei, em sinal de agradecimento, presenteou-o com a rica propriedade do Paul do Boquilobo, aqui às portas de Azinhaga. Andaram os anos. Esqueceram-se motivos. Mesmo, o repeito pelas coisas que custaram a conquistar em jogos de armas ou golpes de inteligência. Pior, a indiferença com que se olham restos que o passado fez chegar aos nossos dias. Cada palmo de chão custou, ontem, como hoje, pelo menos o suor de quem, de uma ou de outra maneira, trabalhou por ele.

O Paul do Boquilobo continua como foi: grande, fértil, prenhe de sementeiras d'oiro. Atravessado pelo Almonda, ali paredes meias com a Broa, Miranda, Caniços, Álamos ... tem uma área de 680 hectares. Do melhor que existe no País e, sem exagero, nas Europas. Boa parte dele, são os "campos da Golegã". Do outro lado do caminho do ferro, em solos alcantilados, a cheirar a Bairros, serão, também os, "olivais de Santarém".

Dá tudo: azeite, trigo, milho, arroz, melão, tomates, pimentos, cânhamo e, céus!, linho, linho que os homens esqueceram produzir nas suas terras gordas. Em tempos de U.E. ...

E tem tudo: oliveiras, sobreiros, choupos, freixos, salgueiros, bunhais, terras, terras, água, água, pântanos, valas, charcos que tornam a paisagem diferente e luxuriante na beleza singular da Borda d^Agua.

E gados: cavalar, bovino, suíno, ovino, caprino que, manadas de lembrar, com guisos, chocas, chocalhos, em orquestrações pastoris, dão uma nota idílica ao desenho recto das pastagens.

A seguir a João das Regras, muitos mais. Quase no final do séc. XIX, foi seu proprietário o Marquês de Nisa, D. Domingos Telles da Gama, que o vendeu ao "opulento capitalista", José Maria Eugénio de Almeida, pela quantia, então fabulosíssima, de 350.000$000réis.

Pertenceria mais tarde, a D. Maria Faustina Margiochi, senhora pronta a bem fazer a necessidade dos pobres. Através de interpostas Instituições. E não só. Dava com satisfação sem perguntar para quem. Nem para quê. Dava. Fortunas, melhor ou pior gastas, por quantos nunca souberam que dar é também dor.

Ao pressentir a hora, a sua, pensou na jóia rara do Paul e, com a mesma gratidão do Rei antigo, ditou para última cláusula do testamento: E mais vos dera se ainda mais tivera

A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, com sede em Paris -, no âmbito do programa MAB - o Homem e a Biosfera - procura incentivar a protecção dos espaços naturais mais representativos dos principais ícossistemas da Terra através da criação de uma rede de reservas da biosfera de que o Paul do Boquilobo faz parte com a incorporação de algumas parcelas das Quintas da Broa e de Miranda.

Para que todos possam saber o que efectivamente representa na preservação do ambiente transcrevemos de uma edição do Instituto da Conservação da Natureza: ""O Paul do Boquilobo é uma zona húmida situada na imediações da Golegã, entre os rios Almonda e o Tejo, classificada como Reserva Natural devido essencialmente ao seu grande valor ornitológico.

Com uma área de 529 hectares, a Reserva Natural do Paul do Boquilobo está dividida segundo o Decreto-Lei n° 198/80, de 24 de Junho, que a criou, em duas zonas com níveis de uso diferentes: Zona de Reserva Integral e Zona de uso extensivo. A paisagem do Paul do Boquilobo é dominada por maciços de salgueiros - salgueiro branco (Salix alba L.) e salgueiro preto (Salix atrocinerea Brot.) - que coexistem com uma zona permanentemente alagada: coberta por várias plantas aquáticas - o golfão branco ( Nymphaea alba L.) e a espadana (Sparganiom erectum L.) entre outras - e com uma extensa área de caniçal.

A Reserva Natural alberga uma importante colónia de garças - garça boieira (Buculus ibis), a garça branca (Egretta garzetta), goraz (Nycticorax nycticorax),- que na época da nidificação, Abril a Junho, atinge um número de alguns milhares de indivíduos. Merece também realce o colheireiro (Platalea Leucorodia) por ser o único local de Portugal, onde nidifica. Por outro lado, o Paul do Boquilobo é uma das principais áreas do país no respeitante à alimentação e repouso de anactídeos - arrabio (Anas acuta), zarro (Aythia ferina), marrequinha (Anas crecca), pato coelheireiro (Anas clypeata) entre outros - que, de Novembro a Fevereiro, nele se refugiam fugindo aos rigores do Inverno noutras paragens. Finalmente, deve-se ainda destacar a presença da gaivina-dos-paúis (Chlidonias hybrida), e da águia pesqueira (Pandiom haliaetus), espécies raras no nosso país.

Mas a Reserva Natural do Paul do Boquilobo não constitui uma ilha isolada no espaço, nem o seu estatuto, só por si, a defende de eventuais agressões vindas do exterior. Daí que, problemas tais como os efluentes industriais, a regularização dos níveis de água para efeitos agrícolas ou a prática imoderada da caça representam outros factores que influenciam directamente o volume e a qualidade quer da água quer da vegetação aquática e a tranquilidade do local condicionando portanto a presença e a nidificação das aves.

Areas terrestres inundáveis, as zonas húmidas nunca constituíram motivo de atracção especial para os homens que nelas sempre viram uma fonte de doenças ou de incómodos transformando-as até, mais recentemente, em locais de descarga de efluentes urbanos e industriais. Os agricultores sempre as procuraram enxugar, muitos caçadores ainda as consideram como simples reserva de caça não é por acaso que, não raras vezes, são associadas à ideia de saneamento.

Tidas durante muito tempo como zonas inóspitas, de fraco rendimento económico e sem grande utilidade social, as zonas húmidas são hoje reconhecidas como espaços de grande valor ecológico e de alta produtividade biológica, desempenhando um papel relevante em domínios tão variados como as da regulação do regime das águas, manutenção do nível da camada freáctica estabilização das margens, contenção da erosão, manutenção de uma flora e fauna abundantes e regulação do clima além de constituirem elementos harmónicos a nível da paisagem".

Enfim, que o homem pense e não esqueça que proteger a Natureza, e as suas coisas, é autodefender-se dos vícios que o tornaram cúmplice de crimes de lesa-Vida.

Começou assalariado, ali na Quinta de Miranda, da Casa Rio Maior. Em pouco tempo atingiu o topo: feitor. Então, transformou a propriedade, até mal explorada, na maior produtora da região. Por que era rica? Rica, sempre fora. E que João Gregório tinha a rara visão do momento em que os trabalhos do campo se devem realizar. E uma argúcia congénita da previsão do momento. Ainda, seus olhos sabiam de dentro o que a terra futurava. E foi assim.

Quando deixou Miranda, arrendou uma propriedade. Depois outra que se transformou em outras. Não importa aonde desde que fosse certa na renda e no fruto. Foi um dos primeiros, se não o primeiro, a transportar o pessoal nos reboques dos tractores. Se não era mais económico, seria, pelo menos, mais humano. Fez-se dos maiores rendeiros do País. Seara gerando seara, comprou o que era justo. E foi lavrador ímpar no amanho do chão. Também ganadero que, em 1954, iniciou a sua vacada com 6 vacas Rio-Maior e 20 Pompeu Caldeira.

Como a peara saísse incerta no nervo e na bravura, refrescou-a com 20 rezes Pinto Barreiros e outras tantas Lopes Aleixo. Beneficiou-as com um semental memorável do Dr. António Silva, de Coruche.A sua vacada chegou a atingir 150 animais. Os seus toiros, agora e até 1976, bravos, fortes e corpulentos, o terror dos forcados, foram lidados com sucesso nas principais arenas do País.

Notáveis os seus jogos de cabrestos conduzidos, no campo e na praça, pela nata dos campinos de então: Joaquim Cunha e Júlio da Ribeira.

Lembram-se das terras do Infantado de quando, no século XVI o príncipe D. Fernando aqui vinha para as olhar viçosas enquanto observava o andamento das obras do palácio em construção ?

Se o palácio nunca se concluiu por môr daquele "sonho de desgraça", premonitório de mortes, as terras, essas ainda aí estão na margem esquerda do Almonda e continuam a chamar-se as "Praias".

Não interessa, por longo e complicado, explanar problemas históricos que só indirectamente dizem respeito à particularidade do lugar. Por outro lado, também é verdade, que a povoação nem por ser aldeia, se pode ou deve dissociar dos acontecimentos que abalaram o Reino.

De príncipe a príncipe, no rolar de gerações em mais de 300 anos, o Infantado chegou, com toda a sorte da sua fortuna, às mãos de D. Miguel. Das suas dissidências, que até se podem dizer ideológicas, com o irmão mais velho, D. Pedro, resultou uma Guerra Civil, sangrenta e dolorosa, que, após o desastre das Invasões Francesas, tanto abalaram o País.

E do conhecimento geral que os Liberais venceram os Absolutistas. Pela força das armas e da razão. Assim acontecendo (Deus não dorme. Nem Deus nem Herculano e Garrett, nem Terceira, Saldanha ou Sá da Bandeira), assim acontecendo, o Infante D. Miguel teve, após assinar a Convenção de Évora Monte, os seus bens confiscados, embora com pensão anual de 60 contos. Deportado para a Austria, quando chegou a Génova, deu o dito por não dito afirmando que fora coagido a assinar. A Convenção é evidente. Daqui que o Estado lhe tivesse retirado a pensão que seria vitalícia. Quanto aos bens, confiscados continuaram.

Aficionado a toiros e cavalos, (o que não faz mal aos homens nem desvaria a política), mandante de caceteiros, ainda lhe foi permitido levar consigo a Coudelaria de Alter, com natural prejuízo para o País.

O povo, coitado, batera-se, como sempre, rijamente e sem interesses dúbios, nas hostes do Senhor D. Pedro. Logo, o povo vencera. Para lhe recompensar os sacrificios e o sangue vertido, as terras do Infantado, entre as quais as "Praias" seriam, de confiscadas que estavam, em divididas por ele. Claro, em principio. Só que, antes do principio, os governantes criaram, com o beneplácito régio, uma empresa a que foi dado o nome de "Companhia das Lezírias do Tejo e Sado". Para quê ? Para que as terras não fossem entregues ou mesmo vendidas ao desbarato. Por via de tanto, se nomeou, o que hoje poderíamos chamar um conselho de administração que a dirigisse por bem. E por tão bem a dirigiu que nem uma parcela das suas terras ou um avo dos seus lucros entrou na posse do povo.

Correram os anos, aí centena e meia, até que, numa madrugada de espanto ocorreu um golpe de estado, logo baptizado por "25 de Abril". Entusiasmo. Lágrimas. Esperança. Nada ficou na mesma, embora pouco se tivesse modificado. Os governos provisórios não faziam porque eram provisórios. Os outros, os constitucionais, esses desfaziam porque poderia parecer mal.

E as terras do Infantado que já nem eram do Infantado, mas do Estado, continuavam na posse da sf Companhia, como o povo, na sua amabilidade, respeitosamente lhe chamava.

Houve propostas ao Ministério, houve, para que das "Praias" se organizasse uma cooperativa, aberta a todos os rurais, mas superintendida por dois responsáveis a nomear pelo Governo: um técnico agrícola para a exploração e um técnico de contas para a contabilidade. Por nada. Só por via de certas confusões. Finalmente, o milagre. E os milagres, se não se explicam, muito menos se com­preendem. Como solução, resolveu-se vender as "Praias" aos seareiros na proporção das terras arrendadas. Se uns compraram muito, a outros coube-lhes pouquíssimo. Mas para quem vive exclusivamente da agricultura, seria sobreviver com meia dúzia de hectares. Explorados todos os anos. Todos. Cultura intensiva, até à exaustão. Sem alternâncias nem poisios retemperadores. Adubos. Regas sobre regas. Estrumes naturais? Onde, se não há gados? Nateiro negado das cheias, se as houver, retido no fundo das barragens. Que o Tejo, perdida a vitalidade, já não é o Nilo português. Assim, o que será dos melhores campos de Portugal?

Responda quem vier depois. Mas, de certo, o velho Luis das Praias, ruivo, hercúleo, respeitado, se vivo fosse, saberia que dizer.

Tendo pertencido, desde sempre, aos "termos de Santarém" e, depois, ao seu Concelho, desanexada dele, a rica e próspera freguesia de Azinhaga foi incluída no novo Concelho da Golegã por decreto de 21 de Novembro de 1895.

Pequena localidade encravada no coração da Borda d’Agua, ou seja, no melhor que existe no Ribatejo, Azinhaga, por tudo o que foi e pelo progresso conseguido ao longo dos séculos, é hoje. nesta hora grave de viragem Maastrich, uma profunda e dolorosa saudade. Meio "essencialmente agrícola", não se lhe descobre futuro no presente incerto que vive na Europa, recebendo para que as suas campinas, fertilíssimas, deixem de produzir. Mesmo assim, se futuro houver, receia-se que não seja o seu, nem sirva, em termos portugueses, aos anseios da sua gente.

 

Actualizado em Quarta, 24 Setembro 2008 11:48
 
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