Obra de José Henriques Dias, contemporâneo de José Saramago. Publicada pela Fundação José Saramago em Maio de 2008, com o apoio da Junta de Freguesia de Azinhaga.
Excerto:
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I - 19 DE DEZEMBRO DE 1933
Às quatro horas da manhã saí da cama. Da aldeia a Figueiró dos Vinhos são mais de duas horas, apé. Soubemos com antecedência que a partida da camioneta para Tomar era às oito horas. Pouco passava das sete e meia quando lá chegámos. O motorista foi matar o bicho, disseram. Quando ele apareceu, o meu pai explicou-lhe que eu ia sozinho e teria que embarcar no comboio em Tomar e mudar no Entroncamento. Eu nunca tinha passado dali, nem fazia ideia de como seria um comboio. O motorista compreendeu e quando chegámos a Tomar levou-me à estação onde encontrou um senhor que ia para a Beira Baixa, e que portanto mudava no Entroncamento, a quem pediu para me dar aí uma ajuda. Quando lá chegámos, esse senhor explicou-me que o meu comboio vinha mais tarde e disse-me onde devia esperá-lo. Entretanto, apareceu o comboio em que ele teve que seguir. Cheguei a meio daquela tarde de Inverno à Estação de Mato Miranda. As pessoas esperavam-me à saída da estação, mas eu contava que estivessem à saída do comboio. Como não aparecesse ninguém, perguntei por onde devia seguir para a Azinhaga e resolvi andar os três quilómetros a pé. Teria andado um quilómetro quando apareceu uma pequena camioneta dé carga que parou e de lá me disseram:
— Então tu não apareceste na estação e agora vens aqui? Vem com a gente.
Foram à estação descarregar e lá me levaram para a Azinhaga.
Com doze anos e sem qualquer experiência da vida, sem conhecer ninguém e num ambiente completamente diferente daquele a que estava habituado, foi como se caísse de pára-quedas em terra estranha.
A maneira de ser dos ribatejanos é bastante diferente da dos serranos; a pronúncia, os hábitos e até o traje. Para aquela gente eu era um «sarranhito» (como eles diziam) que veio para a loja do Gaião.
Os ribatejanos têm uma tez morena, e a minha cor era notada à distância. Por isso a miudagem, às vezes, até me chamava o Zé branco.
A minha única vantagem era saber ler e escrever, coisa rara entre a maioria da população daquela época.
Mas, com o decorrer do tempo, lá me fui adaptando ao meio e passados poucos meses já falava com pronúncia igual à deles. Assimilei-a sem dar por isso.
Posso e devo dizer que, regra geral, a população com quem eu tinha contacto era gente de bons sentimentos. Eu é que não tive sorte. Aqueles de quem estava dependente fugiam à regra. "