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Escrito por Administrator   
Terça, 16 Setembro 2008 06:42

FESTAS DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

 

Com o decorrer dos tempos, a mudança de hábitos e o evoluir das mentalidades, é difícil conhecerem-se, por à distância nos parecerem estranhos, as origens e os porquês de certos eventos. Sobretudo quando não há, como em Azinhaga, notícia escrita que alguém, em boa hora. nos tivesse deixado deles. De longe, chegou-nos, apenas, o eco do eco da memória dos antigos. O que é pouco. Se, "quem conta um conto aumenta um ponto", convenhamos que o que sobreviveu do passado não tem, em regra, razão de ser história. Por muita invenção, por tantos desconcertos, por demasiadas lacunas.

Das Festas do Espírito Santo, aqui também chamadas Festas do Bodo, que, neste século, até 1994, se realizaram por cinco vezes. Alberto Pimentel limita-se a dar nota de umas que tiveram lugar em 1905. E com descuidados pormenores. Ora, supor ou imaginar, com verdade, a sua hora. o seu momento de criação, seria especular. O habitual "ouvi dizer" não vale como documento. Na aldeia, as pessoas não escreviam, faziam. Bastava-lhes. para tanto, a mais ou menos correcta transmissão oral. Por isso, quantos erros. Resta-nos, pois, do sonho e da obra dos nossos antepassados o pouco que ficou gravado nas pessoas.

Não se duvide, no entanto, que se inspiraram no culto do Espírito Santo que. segundo o monge italiano Joaquim de Fiore, "iniciaria a idade do Amor, da Fraternidade e da Liberdade". Veneração que a Rainha Santa Isabel introduziu em Portugal. Generalizando-se a todo o País, originou várias e diferentes celebrações, como, por exemplo, as do continente, dos Açores e do Brasil, posto sem datas de festejos coincidentes.

Da cidade do Nabão, importante centro religioso, sede da Ordem de Cristo, de certo irradiaram e se conservam ainda. A prová-lo, as famosas Festas dos Tabuleiros, belo e original cartaz da Região de Turismo dos Templários.

Mercê da proximidade a que Azinhaga se encontra de Tomar, admite-se que a sua gente, ao sabê-las, tarde ou cedo se tenha interessado nelas. Leve-se em conta que a Misericórdia local seria, naturalmente, a condutora espiritual (e não só) do povo autóctone. E, também, porque, ao que se pensa, uma "sumptuosa Igreja", erigida em terras de Santa Maria do Almonda, no sítio onde é hoje, a Ermida de Nossa Senhora da Piedade, teria pertencido aos cavaleiros do Templo que D. Dinis habilmente transformaria em Ordem de Cristo.

Assim, se Tomar se ergue, altaneira, na zona em que o Ribatejo se transmuda em contornos e perfumes de Beiras, e Azinhaga, humilde mas personalizada, se implanta em pleno coração da Borda d'Agua, seria forçoso, pelo senso de cada um dos seus povos, que as Festas tivessem características, índole e motivações diferentes. Importa recordar que o binómio toiro/cavalo impôs ao habitante da lezíria um modo singular de estar e de entender a vida. Se as realizações populares contêm em si o gérmen de quem as criou e a seiva da região que as sustentam, nas festividades do Espírito Santo, em Azinhaga, a vertente lúdica suplanta o seu pendor religioso. Certo que é presente, mas aparece, sempre, diminuído no confronto. Por isso, em termos populares, a uma se chama Festa dos Tabuleiros e à outra Festa do Bodo. Bodo, entre outras coisas, significa dádiva de alimentos que possam suster ou evitar, no lapso do acontecimento, a necessidade dos pobres. Logo, caridade. Porém, Manuel Grandra contrapõe que "'durante os festejos se procedia à distribuição de pão, não como esmola, mas como preâmbulo da instauração na terra da era de Fraternidade profetizada". Convém acrescentar que aqui se distribuía, também, carne e vinho. Sustentos, pois, para maior vantagem do corpo que do espírito, admitindo mesmo que o vinho se poderá transformar em sangue de Deus.

Não se conhecendo a data do início das festividades, sabe-se, no entanto, como escreve o Marquês de Rio Maior que nos "livros de Receita e Despesa do Morgado da Ventosa, existentes no Cartório da Casa da Anunciada", se pagava aos criados-justos, de comedorias, no ano de 1678, "um alqueire de trigo, por cada uma das festas do Natal, da Páscoa e do Espírito Santo". Equiparam-se, como se vê, as três solenidades religiosas, dando-lhes igual importância.

Nos seus primeiros passos, a festa do Pentecostes era celebrada com a mesma humildade cristã que as outras. Seguia o calendário sem explosões profanas que lhe pudessem quebrar ou subverter a sua tendência puramente religiosa. Depois... Bem, depois, quando se tornavam esplendorosas e ricas, foi necessário conseguir-lhes rituais de suprema grandeza. E tempo para as organizar com eficiência. Desta maneira, quando o povo o entendia, escolhiam-se ou propunham-se os seus promotores que principiavam por nomear o juiz e os restantes elementos da comissão.

Os seus preparativos iniciavam-se com a antecedência julgada precisa para que se reunisse, sem esforço nem sacrifício, a quantia suficiente para suportar as despesas da sua organização.

Já neste século é o momento da comissão, acompanhada pela Banda, visitar o juiz, entregando-lhe a coroa de prata do Espírito Santo que permanecerá em sua casa até à noite de segunda-feira seguinte ao domingo de Pentecostes. Em cortejo semelhante, a coroa será, nessa data, confiada ao juiz da futura Festa ou, em caso deste não existir, depositada na Capela do Padroeiro.

Após se ter dado conhecimento à população de que as festividades se realizam, aceitam-se as inscrições dos mordomos aos quais compete: pagar determinada verba que poderá efectuar em prestações mensais; oferecer o pão para o Espírito Santo; apresentar uma moça à qual oferecerá um tabuleiro de madeira e uma rodilha enfeitada, na parte de trás, com muitas fitas de seda, estreitas e coloridas, cujo comprimento não deverá ultrapassar a orla da saia; ainda três vestidos; azul, branco e rosa, meias e sapatos cinzento-claro, de meio salto.

Os meios-mordomos pagarão metade dos mordomos, o que poderão cumprir de igual maneira. Quando da distribuição do bodo, caber-lhes-à metade do pão, da carne e do vinho que os outros receberem.

O juiz tem a responsabilidade do pagamento de uma quantia superior às dos restantes; oferecer um moio de trigo; entregar pão e, nas mesmas condições da mordomia, propor uma moça, que será a guia, a quem dará todos os atavios necessários e um cesto redondo, de vime.

A comissão e sub-comissões comprometem-se a tratar de todos os casos e assuntos concernentes com as festas: cerimónias religiosas e actos profanos; prover a ornamentação e atapetamento, com junca e flores, da Casa do Bodo e das ruas que serão também iluminadas, bem como a Matriz e. pelo menos, a Ermida do Espírito Santo. Quando da passagem dos cortejos, todos os habitantes, que o desejem, deverão colocar colgaduras em cada uma das suas janelas.

A guia, embora com as mesmas três cores. deverá envergar sempre vestidos de tons diferentes dos das outras. Desfila sozinha, na frente do grupo, com o cesto de vime ornado com muitas flores. As moças, que podem escolher o seu par, têm uma participação simbólica. Preponderantes no desenrolar das cerimónias religiosas e profanas, porquanto, segundo Paulo Graça Sousa, "existir uma ligação muito estreita entre o espírito e a mulher... que é a sabedoria e portadora da vida". Os rapazes serão, apenas e só, meros participantes. De cabeça descoberta, vestem camisas brancas e calças, cintas, meias e sapatos pretos. Vão à esquerda das moças durante os desfiles. A sua função resume-se a colocarem e a tirarem os tabuleiros que elas trazem à cabeça.

O juiz, sobretudo nos cortejos da distribuição do bodo, irá a cavalo, vestindo trajo de lavrador, sobre o qual, uma capa branca de gola azul lhe outorgará a solenidade conveniente. Transporta, na mão direita, a coroa de prata do Divino Espírito Santo. As Festas realizadas, ainda no séc. XIX, tiveram como juízes os lavradores Carlos Marques e Eng. Manuel Tavares Veiga.

Na "Estremadura Portuguesa", Alberto Pimentel, num trabalho sobre Azinhaga, escreve que "Se fazem nesta povoação pomposos festejos do Espírito Santo", reproduzindo, como curiosidade, o programa textual dos que se realizaram de 8 a 13 de Junho de 1905;

"Dia 8 - Alvorada pela phylarmónica Azinhaguense e entrada das vacas que hão-de ser abatidas para o bodo, e de tarde, corridas por amadores. Serão também lidados touros puros, generosamente oferecidos pelo Sr. Eduardo Marques. A noite procissão e novena.

Dia 9 - Conducção das vaccas para o matadouro e conducção dos mordomos para a casa do bodo por 20 raparigas vistosamente vestidas. A noite procissão da casa do bodo para a Igreja e novena.

Dia 10 - De manhã, continua a conducção do pão da casa dos mordomos para a casa do bodo. De tarde, distribuição do bodo, acompanhado por um cortejo de lavradores a cavalo e cyclistas, duas phylarmónicas, as raparigas que conduziram o pão, e seis carros vistosamente ornamentados, com pão, carne e vinho. A noite procissão, novena, iluminações e bailes campestres.

Dia 11 - Missa a grande instrumental, procissão, arraial e iluminações.

Dia 12 - Corrida grátis com touros generosamente oferecidos pelo Sr. Eduardo Marques.

Dia 13 - Corrida de touros gratuita, em que, tomam parte os mesmos artistas".

Na distribuição do bodo, os seis carros eram puxados por três, quatro juntas de toiros de tralhoada. No primeiro, ou seja no do pão, na junta da frente, os toiros estavam jungidos por uma canga vistosamente torneada por José Maria Castelo, tendo, ao centro, a pomba do Espírito Santo, enquanto as dos anos 30 foram arte de seu filho Cirilo.

Estas Festas, certamente mais grandiosas que alguma vez se efectuaram em Azinhaga, foram organizadas e tiveram por juiz Máximo Simões do Couto. Para espanto dos forasteiros, as iluminações, em toda a povoação, eram a electricidade produzida por um enorme gerador instalado no Largo do .Amado. Se tivermos em linha de conta que a luz eléctrica foi aqui inaugurada em 1936, era, realmente, motivo de espanto o brilho da* luminárias.

Em 1931 e 1932, realizaram-se aqui mais duas Festas em honra do Divino Espírito Santo que, sem haverem atingido o esplendor das de 1905, foram, mesmo assim, notáveis e grandiosas. Tiveram como juízes, respectivamente o Conde de Azinhaga e José da Silva Castelo, pertencendo, entre outros, às comissões executivas, da primeira, João Lopes, Francisco Valério e José de Oliveira e, da segunda, Francisco Rodrigues, Silvino Pedro, Francisco Lopes e Manuel Caixeiro. Para as conseguir reviver, a gente de Azinhaga superou-se até ao limite das suas frágeis possibilidades. Mas mereceu-as com a força, o entusiasmo e a vontade que ficarão como exemplo de quanto pode o povo quando quer.

Desde tempos imemoriais, que a Feira se fazia, na Rua da Igreja, paralelamente com as Festas ou, até, quando em muitos anos se não realizavam. Por isso lhe chamavam Feira do Espírito Santo.

A sua decadência, porém, foi-se acentuando, não pela mudança do seu poiso para o Largo do Miradouro, mas porque, com a melhoria das suas condições de vida e com a chegada dos transportes em camioneta, a população, mais desafogada e exigente, procurava noutros meios, como Santarém, Torres Novas e Entroncamento, o que havia de mercar.

Descoroçoadas com a falência do negócio, os feirantes, aos poucos, foram-na abandonando. E a feira, antiquada e caduca, foi decaindo, decaindo até encontrar o fim que há muito se previa.

Um ror de anos volvidos, a partir de 1990, com Aureliano Alexandre e, depois, Vitor da Guia, a Junta da Freguesia tentou, com realismo, reavivá-la em moldes mais modernos, logo consentâneos com o interesse e as aspirações dos habitantes da aldeia. Marcou-lhe quatro, cinco dias do mês e chamou-lhe. "Feira de Maio", por aproximação com a data móvel do Pentecostes. E nela apareceram as surpresas das novidades como exposições de artesanato, electrodomésticos, mobiliário, comércio, cortumes, produtos alimentares, máquinas agrícolas, motos, automóveis... Em complemento, numa vertente dinâmica, surgiram, como por encanto, concertos, festivais de folclore, jogos tradicionais, desfiles de trajos e alfaias antigas, colóquios, palestras... Enfim, actualizou-se, como convinha, em contraponto ao estaticismo do passado. Foi um sucesso. De tal modo que, com inventiva e perseverança o futuro se lhe descobre no encontro de novas motivações.

Actualizado em Quarta, 24 Setembro 2008 23:03
 
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